XIX IBERCOM: quatro dias para pensar os desafios da Comunicação no espaço ibero-americano
Julho 10, 2026Entre 6 e 9 de julho, a Universidade do Minho recebeu o XIX Congresso Ibero-Americano de Comunicação. Ao longo de quatro dias, investigadores de diferentes países e gerações reuniram-se em Braga, presencialmente e online, para discutir algumas das questões que mais profundamente atravessam as sociedades contemporâneas. Inteligência artificial, desinformação, jornalismo, plataformas digitais, cidadania, desigualdades, memória, identidades, cultura e transformação social estiveram entre os temas de um encontro que mostrou, acima de tudo, a importância de continuar a pensar criticamente a Comunicação.
Durante quatro dias, a Universidade do Minho tornou-se um espaço privilegiado de encontro, diálogo e partilha entre investigadores do campo da Comunicação. O XIX IBERCOM, realizado entre 6 e 9 de julho de 2026, reuniu uma programação extensa e diversificada, distribuída por sessões plenárias, dezenas de sessões paralelas, apresentações de livros e atividades sociais e culturais. Os três primeiros dias decorreram presencialmente, em Braga, enquanto o último dia prolongou o congresso em formato online.
Mais do que a dimensão do programa, porém, foi a diversidade dos problemas colocados em discussão que marcou esta edição do congresso. Percorrer as 38 páginas do programa é encontrar um retrato particularmente revelador das inquietações que atravessam atualmente a investigação em Comunicação no espaço ibero-americano.
Um congresso atravessado pelas tensões do presente
O próprio início do XIX IBERCOM deixou clara essa preocupação. A primeira sessão plenária, “Cartografia de tensões globais e locais: agendas, ruturas e ativismos”, propôs uma reflexão sobre um mundo marcado por transformações políticas, tecnológicas, culturais e sociais que não podem ser compreendidas isoladamente.
Essa perspetiva acompanhou todo o congresso.
Nas diferentes salas e sessões, discutiram-se fenómenos tão diversos como a imigração nas campanhas eleitorais, a cidadania digital perante o colonialismo de dados, a comunicação participativa e contra-hegemónica, os riscos climáticos nas plataformas digitais, as desigualdades no consumo de notícias, a representação mediática das migrações, os movimentos de protesto digital, os ativismos feministas e antirracistas e as novas formas de participação política.
Apesar da diversidade temática, é possível reconhecer uma questão transversal a grande parte dos trabalhos apresentados: como compreender a Comunicação num contexto em que o poder, a informação, a tecnologia e a participação social estão cada vez mais interligados?
O congresso mostrou que responder a esta pergunta exige ultrapassar fronteiras disciplinares e geográficas. Exige também observar criticamente quem produz informação, quem controla as infraestruturas comunicacionais, quem consegue participar no espaço público e quem continua a permanecer nas suas margens.
Inteligência artificial e plataformas: entre possibilidades e inquietações
Poucos temas estiveram tão presentes no programa do XIX IBERCOM como a inteligência artificial e a crescente plataformização da vida social.
A IA surgiu associada à política, à desinformação, ao jornalismo, à publicidade, à comunicação pública, às organizações, à educação e à própria produção de conhecimento. Entre os trabalhos apresentados estiveram investigações sobre o uso de inteligência artificial em casos de desinformação eleitoral, a regulação da IA, as respostas produzidas por chatbots, os conteúdos sintéticos, a utilização destas tecnologias nas redações e assessorias de imprensa e os desafios da IA para as universidades.
Essa presença transversal revela algo importante: já não é possível pensar a inteligência artificial como um campo isolado de investigação.
A IA tornou-se parte do próprio ambiente comunicacional contemporâneo.
Ao mesmo tempo, as discussões sobre TikTok, Instagram, algoritmos, influenciadores digitais, comunicação pública plataformizada e circulação de conteúdos mostraram que as plataformas não são espaços neutros onde a Comunicação simplesmente acontece. Elas organizam visibilidades, influenciam práticas, recolhem dados, condicionam a circulação da informação e interferem nas formas como os indivíduos compreendem o mundo.
Entre a conveniência proporcionada pelas tecnologias digitais e as novas formas de invisibilidade algorítmica, emerge um dos grandes desafios contemporâneos da Comunicação: compreender as infraestruturas que passaram a mediar uma parte significativa das nossas relações sociais.
Desinformação e literacia mediática: compreender antes de combater
Para o MILObs, várias das discussões realizadas ao longo do congresso assumiram uma relevância particular.
A desinformação apareceu no programa relacionada com diferentes públicos, tecnologias e contextos. Foram apresentados trabalhos sobre pessoas com desafios cognitivos e a sua relação com a literacia mediática e a desinformação; inteligência artificial e conteúdos sintéticos; verificação de factos; circulação de informação nas plataformas; comunicação política; confiança institucional e riscos associados aos ambientes digitais.
Um dos aspetos mais interessantes desta diversidade é precisamente a impossibilidade de reduzir a desinformação a um único problema.
A experiência do XIX IBERCOM reforçou uma ideia fundamental para quem trabalha na área da literacia mediática: não basta identificar conteúdos falsos ou ensinar técnicas de verificação.
É necessário compreender os ecossistemas em que a informação circula.
Isso significa discutir plataformas, algoritmos, modelos de negócio, desigualdades sociais, confiança nas instituições, hábitos de consumo mediático, participação política, competências digitais e as diferentes condições que permitem ou dificultam, o exercício de uma cidadania informada.
A literacia mediática surge, assim, não apenas como uma resposta à desinformação, mas como uma competência indispensável para compreender criticamente o ambiente comunicacional contemporâneo.
O jornalismo perante um ecossistema em transformação
O jornalismo ocupou igualmente um espaço significativo na programação.
As sessões dedicadas aos Estudos de Jornalismo abordaram a profissão jornalística, a cobertura de guerras e conflitos, o jornalismo científico, o fact-checking, as rotinas editoriais, a extrema-direita, a inteligência artificial, os média sociais, a representação das migrações e as desigualdades territoriais na produção noticiosa.
A própria diversidade dos trabalhos mostra uma profissão confrontada com profundas transformações.
Por um lado, o jornalismo continua a desempenhar um papel essencial na construção do espaço público e na mediação da realidade. Por outro, enfrenta a precarização profissional, a dependência crescente das plataformas digitais, a fragmentação das audiências, a circulação acelerada de desinformação e a incorporação da inteligência artificial nos processos de produção e distribuição de conteúdos.
Neste contexto, algumas perguntas atravessaram, direta ou indiretamente, diferentes sessões do congresso: que jornalismo é possível num ambiente dominado por plataformas? Como preservar princípios éticos perante a aceleração tecnológica? Que relação deve existir entre jornalistas, públicos e algoritmos? E como reconstruir relações de confiança num ecossistema informacional cada vez mais fragmentado?
O congresso não procurou oferecer respostas simples. Criou, antes, um espaço para reconhecer a complexidade dessas transformações.
Comunicação, cidadania e desigualdades
Outro eixo particularmente significativo do XIX IBERCOM foi a relação entre Comunicação e cidadania.
Os trabalhos apresentados abordaram públicos e grupos sociais muito distintos: crianças e jovens, pessoas idosas, migrantes, refugiados, mulheres, pessoas LGBTQIA+, comunidades vulneráveis e populações historicamente marginalizadas.
Discutiram-se o colonialismo de dados, a cidadania intergeracional, o envelhecimento e as plataformas digitais, a violência de género, o racismo, as migrações, as desigualdades no consumo de notícias e as formas contra-hegemónicas de participação.
Essa diversidade ajudou a recordar algo que, por vezes, pode ser esquecido quando se fala de inovação tecnológica: as transformações comunicacionais não afetam todas as pessoas da mesma maneira.
O acesso à informação, as competências necessárias para compreender os media, a possibilidade de participar no espaço público e a capacidade de tornar determinadas experiências visíveis continuam profundamente condicionados por desigualdades sociais, económicas, culturais e territoriais.
Pensar a Comunicação implica, por isso, pensar também as condições concretas de exercício da cidadania.
Memória, cultura e resistência
O programa do congresso mostrou igualmente que compreender o presente exige olhar para a memória.
A memória apareceu em investigações sobre acontecimentos históricos, monumentos, arquivos, meios de comunicação, pandemia, cinema, rádio, povos indígenas e disputas políticas sobre o passado.
Também esteve presente nas apresentações de livros, que reuniram obras sobre género e comunicação, memória, consumo, cibercultura, monumentos, comunicação organizacional, música e museus.
Esta relação entre Comunicação e memória ganhou ainda outra dimensão através das discussões sobre colonialidade, decolonialidade, identidades culturais, feminismo, antirracismo e práticas de resistência.
A quarta sessão plenária sintetizou, de certa forma, esse espírito ao propor uma reflexão sobre “Os média e as práticas comunicacionais como espaços de resistência, criação e transformação social”.
Foi uma ideia particularmente presente ao longo do congresso: a Comunicação não é apenas um espaço onde os conflitos sociais são representados. É também um lugar onde esses conflitos acontecem, onde identidades são construídas, onde memórias são disputadas e onde podem surgir novas possibilidades de transformação.
Quarenta anos de diálogo ibero-americano
O XIX IBERCOM foi também um congresso de memória e de celebração.
A segunda sessão plenária assinalou os 40 anos da ASSIBERCOM, proporcionando um momento de reflexão sobre a construção e a consolidação do campo da Comunicação no espaço ibero-americano.
Num congresso marcado por investigadores provenientes de diferentes países, instituições, tradições científicas e gerações, esta dimensão tornou-se particularmente visível.
Portugal, Brasil, Espanha, México e outros contextos nacionais estiveram presentes numa programação em que muitos trabalhos adotaram perspetivas comparadas e transnacionais.
Esse diálogo constitui uma das maiores riquezas de um encontro como o IBERCOM.
Problemas globais como a desinformação, a inteligência artificial, as alterações climáticas, a concentração das plataformas e as crises democráticas assumem características particulares em cada território. Colocar essas experiências em diálogo permite reconhecer diferenças, mas também identificar desafios comuns.
A investigação também se constrói nos encontros
A experiência de um congresso, contudo, dificilmente cabe num programa científico.
Ela acontece nas sessões e nas apresentações, mas também nas perguntas feitas no final de cada comunicação, nas conversas que continuam depois dos debates, nos corredores, nos reencontros e nos primeiros encontros entre investigadores.
O programa social e cultural do XIX IBERCOM contribuiu para ampliar essa experiência, com a visita guiada “Braga entre Memória e Poder: Visita Guiada numa Perspetiva Contra-hegemónica e Decolonial”, o jantar do congresso, a visita ao Muzeu e o momento dedicado ao Toque Braguez.
Num encontro científico, estes espaços não são secundários.
São também momentos de circulação de ideias, criação de redes e aproximação entre pessoas que investigam problemas semelhantes a partir de contextos distintos.
O que fica depois do XIX IBERCOM?
Ao terminar um congresso com a dimensão e a diversidade do XIX IBERCOM, talvez a principal conclusão seja a impossibilidade de encontrar uma única resposta para os desafios contemporâneos da Comunicação.
O que encontramos são perguntas.
Como garantir uma participação verdadeiramente democrática num espaço público cada vez mais mediado por plataformas privadas?
Como preparar os cidadãos para compreender criticamente ambientes informacionais atravessados por algoritmos e inteligência artificial?
Como enfrentar a desinformação sem ignorar as desigualdades, os contextos culturais e as relações de confiança?
Como preservar e reinventar o jornalismo?
Como tornar visíveis experiências e grupos historicamente marginalizados?
Como produzir conhecimento científico capaz de responder às transformações de sociedades cada vez mais complexas?
Entre 6 e 9 de julho, o XIX IBERCOM mostrou que estas perguntas não podem ser respondidas isoladamente.
Precisamos de diálogo entre países, instituições, disciplinas e gerações. Precisamos de espaços onde seja possível confrontar perspetivas, apresentar investigações ainda em desenvolvimento, questionar certezas e construir novas perguntas.
Para o MILObs, acompanhar esta edição do IBERCOM significou participar num espaço particularmente relevante para pensar o presente e o futuro da Comunicação e da literacia mediática.
Depois de quatro dias intensos, entre sessões presenciais e online, apresentações, debates e encontros, fica a experiência de um congresso que mostrou a vitalidade e a diversidade da investigação ibero-americana.
Mas fica, sobretudo, uma certeza: num momento em que compreender os media, a informação e as tecnologias se tornou cada vez mais importante para compreender a própria sociedade, criar espaços de encontro, reflexão e investigação crítica é mais necessário do que nunca.





