Reguladores ibero-americanos apresentam projetos de literacia mediática para reforçar a resiliência digital
Agosto 17, 2026A UNESCO apresentou um conjunto de projetos desenvolvidos por reguladores audiovisuais de diferentes países ibero-americanos com o objetivo de reforçar a literacia mediática e informacional, o pensamento crítico e a capacidade dos cidadãos para lidar com os desafios dos atuais ambientes digitais.
As iniciativas resultam do Curso Internacional de Alfabetização Mediática e Informacional para Reguladores Ibero-Americanos, realizado entre setembro e novembro de 2025 pelo Grupo de Trabalho AMI da Plataforma de Reguladores Audiovisuais Ibero-Americanos (AMI-PRAI), pelo Consell de l’Audiovisual de Catalunya (CAC) e pela UNESCO, em colaboração com a Universidade Lusófona de Lisboa.
Ao longo de oito semanas de formação, representantes de entidades reguladoras trabalharam no desenvolvimento de políticas públicas e projetos orientados para diferentes dimensões da literacia mediática, desde a educação crítica para o uso do telemóvel até à inteligência artificial, passando pela participação comunitária, formação de professores, jornalismo escolar, inclusão digital e criação de repositórios de recursos.
Mais do que um exercício formativo, o curso procurou transformar a aprendizagem em propostas concretas de intervenção. No final, os participantes assumiram o compromisso de dar visibilidade aos projetos, promover a sua implementação e manter encontros periódicos entre os membros da comunidade criada durante a formação, consolidando uma agenda regional de cooperação em literacia mediática.
Da escola à comunidade: respostas para diferentes públicos
Os projetos apresentados mostram uma grande diversidade de abordagens, públicos e contextos.
Na Catalunha, o Consell de l’Audiovisual de Catalunya apresentou “Let’s Talk About the Mobile Phone Without the Mobile Phone”, uma proposta dirigida a crianças entre os 9 e os 10 anos. A iniciativa pretende criar momentos de reflexão sobre o uso responsável da tecnologia, envolvendo alunos, professores e famílias em temas como privacidade, pegada digital, desinformação e tempo de ecrã.
Também a partir de Espanha, a Comisión Nacional de los Mercados y la Competencia apresentou a proposta “CNMCmedia Platform”, pensada para reunir num único espaço digital as iniciativas de literacia mediática desenvolvidas por instituições públicas, reguladores, plataformas digitais, meios de comunicação e organizações da sociedade civil. A ideia é facilitar a partilha de boas práticas, evitar a duplicação de esforços e melhorar a coordenação entre diferentes políticas e projetos.
Já o Consejo Audiovisual de Andalucía apresentou “Level Up: Play with Purpose”, uma proposta baseada em dinâmicas de jogo para desenvolver o pensamento crítico dos jovens perante conteúdos digitais, redes sociais e videojogos.
Diagnóstico, formação e recursos
Na Colômbia, a Comisión de Regulación de Comunicaciones apresentou duas propostas complementares. Uma delas prevê a realização de um diagnóstico nacional das competências de literacia mediática e informacional de estudantes do ensino secundário e superior, procurando compreender de que forma os jovens acedem, avaliam e utilizam informação.
A segunda proposta consiste na criação de um repositório nacional de recursos de literacia mediática e digital, destinado a reunir materiais educativos, boas práticas e recursos pedagógicos abertos dirigidos a crianças, professores e famílias.
No Peru, o Consejo Consultivo de Radio y Televisión apresentou uma guia metodológica de literacia mediática para professores do ensino básico. A proposta pretende apoiar a integração da análise crítica dos media, das tecnologias digitais e da inteligência artificial nas práticas pedagógicas, reforçando competências cívicas e pensamento crítico em contexto escolar.
Participação comunitária e cidadania
O Equador surge com várias propostas orientadas para a participação e inclusão.
O projeto “Every Voice Counts”, promovido pelo Consejo de Comunicación, procura utilizar rádios comunitárias como espaços de fortalecimento da literacia mediática, incentivando a participação cidadã, a diversidade informativa e o acesso das comunidades locais à produção de conteúdos.
Outra proposta pretende desenvolver uma política pública de literacia mediática e informacional para a cidade de Quito, articulando autoridades locais, sistema educativo e sociedade civil.
Também do Equador surge “Overcoming Technological Gaps”, um projeto que prevê a criação de um manual e ações de formação para pessoas idosas, com o objetivo de reforçar competências digitais e promover uma participação mais informada na vida pública.
Foi ainda apresentado um “Manual for Student Journalism Clubs”, associado ao projeto Periodismo Violeta, destinado a apoiar práticas jornalísticas responsáveis entre estudantes, através de workshops, materiais pedagógicos e produção de conteúdos com especial atenção à prevenção da violência contra as mulheres e à liberdade de expressão.
Inteligência artificial, desinformação e bolhas informativas
A inteligência artificial aparece igualmente entre os temas centrais das propostas apresentadas.
O Consell de l’Audiovisual de Catalunya apresentou ALERTIA, uma ferramenta baseada em inteligência artificial concebida para funcionar como assistente digital e alertar os utilizadores antes da partilha de conteúdos potencialmente sensíveis ou enganosos. A proposta procura incentivar práticas mais responsáveis nas redes sociais e reforçar a cidadania digital.
Em Portugal, Bruna Afonso, da Entidade Reguladora para a Comunicação Social, apresentou o projeto “Bubble-Breaker Generations”, orientado para a promoção do diálogo intergeracional e da exposição a diferentes fontes de informação, procurando combater fenómenos de polarização, enviesamento e formação de bolhas informativas.
Na Argentina, Cecilia Passavanti, da ENACOM, apresentou uma proposta de quadro legislativo para conteúdos digitais, com o objetivo de reforçar a proteção das audiências e promover padrões de responsabilidade no ecossistema digital.
Literacia mediática desde a infância
Entre as propostas dirigidas aos públicos mais jovens encontra-se também “Information Detectives”, apresentada pelo Consejo Nacional de Televisión do Chile.
O projeto prevê uma série de vídeos animados destinados a crianças entre os 7 e os 10 anos, concebidos para explicar de forma lúdica como os conteúdos digitais são criados e circulam, promovendo desde cedo competências de pensamento crítico.
A diversidade das propostas apresentadas mostra que a literacia mediática é hoje pensada para diferentes idades, contextos e necessidades, indo muito além da simples identificação de desinformação.
Uma agenda regional em construção
O conjunto de iniciativas evidencia uma preocupação comum entre os reguladores ibero-americanos: reforçar a capacidade dos cidadãos para compreender e participar criticamente no atual ecossistema informativo.
Os projetos abrangem educação, participação comunitária, formação de professores, inteligência artificial, políticas públicas, proteção das audiências, inclusão digital e produção de conteúdos, mostrando que a literacia mediática está a ser trabalhada de forma cada vez mais transversal.
A apresentação destes trabalhos representa também um dos resultados concretos da colaboração entre a UNESCO, a AMI-PRAI, o CAC e a Universidade Lusófona, mas o objetivo não termina com a conclusão do curso. Os participantes acordaram em continuar a dar visibilidade aos projetos, procurar formas de os implementar e manter encontros periódicos da comunidade criada durante a formação.
Esta continuidade é particularmente relevante num contexto marcado pela desinformação, pela inteligência artificial e pela transformação acelerada dos ambientes digitais. Em vez de responder a estes desafios apenas através da regulação, os projetos mostram uma aposta na capacitação dos cidadãos, na educação e na criação de condições para uma participação mais crítica e informada.
A iniciativa contribui, assim, para a consolidação de uma agenda ibero-americana de literacia mediática e informacional que aproxima reguladores, educação, comunidades e políticas públicas em torno de um objetivo comum: fortalecer a resiliência digital e a capacidade dos cidadãos para exercerem os seus direitos no atual ecossistema mediático.
Mais informações sobre os projetos e o curso internacional podem ser consultadas em:
https://www.unesco.org/en/articles/ibero-american-regulators-promote-media-literacy-strengthen-citizens-digital-resilience
Materiais do Curso Internacional de Alfabetização Mediática e Informacional para Reguladores Ibero-Americanos:
https://www.unesco.org/es/fieldoffice/montevideo/expertise/pidc-ami