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Quando o mercado deixa de informar: porque regressou o Estado ao debate sobre o futuro do jornalismo

Julho 27, 2026

Durante décadas, a resposta para a crise dos media foi procurada no mercado. Hoje, perante o crescimento dos desertos informativos e o enfraquecimento do jornalismo local, vários estados norte-americanos começam a experimentar uma solução que durante muito tempo parecia politicamente impensável: utilizar políticas públicas para apoiar a produção de informação de interesse público.
A reportagem que não podia esperar
Em setembro de 2025, uma operação de grande escala conduzida pelo Immigration and Customs Enforcement (ICE) transformou diversos bairros de Chicago num dos principais focos do debate político norte-americano sobre imigração. Enquanto agentes federais realizavam detenções em vários pontos da cidade, familiares procuravam informações sobre o paradeiro dos detidos e organizações da sociedade civil denunciavam a falta de transparência das autoridades.
As respostas oficiais eram escassas. Os comunicados divulgados pelo Departamento de Segurança Interna limitavam-se a justificar a operação, sem esclarecer quem estava a ser detido, quais os critérios utilizados ou quantas pessoas tinham sido encaminhadas para centros de detenção.
Foi nesse vazio informativo que o jornalismo local voltou a demonstrar a sua relevância.
A redação do Block Club Chicago, uma organização sem fins lucrativos dedicada à cobertura da vida quotidiana dos bairros da cidade, destacou jornalistas para acompanhar diretamente a operação. Os repórteres permaneceram junto aos tribunais e centros de detenção, documentaram a movimentação das autoridades, recolheram testemunhos de famílias e advogados, criaram canais de informação em tempo real para a população e, em colaboração com outras redações locais, reconstruíram aquilo que as autoridades recusavam explicar publicamente.
Mais tarde, através da análise de dados oficiais, demonstrariam que a maioria das detenções efetuadas no estado de Illinois não envolvia pessoas com antecedentes criminais.
A história tornou-se um exemplo do papel que o jornalismo local continua a desempenhar na fiscalização do poder público. Mas revelou igualmente outro aspeto menos visível.
Parte dessa cobertura só foi possível porque aquela redação beneficiava de um programa criado pelo Estado de Illinois destinado a apoiar financeiramente organizações jornalísticas locais.
Durante muito tempo, esta frase teria parecido contraditória.
Hoje começa a deixar de o ser.
Durante vinte anos procurou-se salvar o mercado
A crise do jornalismo não começou com a inteligência artificial, nem com as redes sociais.
As suas origens remontam à transformação profunda do mercado publicitário iniciada no final dos anos 1990. Durante grande parte do século XX, o jornalismo comercial desenvolveu-se apoiado num modelo económico relativamente estável. A venda de exemplares representava apenas uma parcela das receitas; a principal fonte de financiamento encontrava-se na publicidade local, desde classificados e imobiliárias até supermercados, concessionários automóveis ou pequenos negócios.
Esse equilíbrio começou a desfazer-se quando a publicidade migrou para plataformas digitais capazes de oferecer segmentação de públicos, métricas detalhadas e custos significativamente inferiores.
Craigslist absorveu rapidamente o mercado dos classificados. Poucos anos depois, Google e Facebook passaram a concentrar uma parte crescente do investimento publicitário mundial.
O impacto sobre os jornais foi devastador.
Nos Estados Unidos, as receitas provenientes da publicidade impressa caíram mais de 90% entre 2000 e 2023. Paralelamente, as plataformas digitais consolidaram uma posição dominante na distribuição da publicidade online, reduzindo drasticamente a capacidade financeira das redações.
Durante algum tempo acreditou-se que a transformação digital acabaria por compensar essas perdas.
As audiências migrariam para a internet, os leitores pagariam assinaturas digitais e os meios de comunicação reconstruiriam gradualmente os seus modelos de negócio.
A realidade revelou-se bastante diferente.
A economia da atenção mudou de mãos
A digitalização alterou profundamente a forma como a informação circula, mas não criou um ambiente económico capaz de substituir o modelo anterior.
Grande parte das estratégias desenvolvidas pelas organizações jornalísticas dependia de um pressuposto essencial: as plataformas digitais continuariam a encaminhar utilizadores para os seus sítios eletrónicos.
Foi precisamente essa lógica que começou a desaparecer.
À medida que Facebook reduziu a visibilidade das notícias, que a Google passou a responder diretamente às pesquisas dos utilizadores e que sistemas de inteligência artificial generativa começaram a sintetizar conteúdos sem necessidade de visitar as páginas originais, muitas organizações verificaram uma quebra acentuada do tráfego digital.
O problema deixou de ser apenas tecnológico.
Passou a ser estrutural.
As plataformas continuavam a beneficiar da circulação de informação produzida por terceiros, mas o retorno económico para quem financiava essa produção diminuía progressivamente.
Nos últimos anos, a crise do jornalismo deixou de poder ser interpretada apenas como uma dificuldade de adaptação das empresas de comunicação.
Começou a ser entendida como uma consequência das profundas alterações introduzidas pela economia das plataformas na circulação da informação.
Quando desaparecem os jornais, desaparece apenas um negócio?
Esta questão conduziu a uma mudança importante na forma como investigadores e decisores políticos começaram a olhar para o problema.
Durante muito tempo, o encerramento de jornais foi encarado sobretudo como o desaparecimento de empresas incapazes de competir num mercado em transformação.
Contudo, a investigação produzida na última década mostrou que as consequências iam muito além do setor dos media.
Penelope Muse Abernathy demonstrou que centenas de comunidades norte-americanas passaram a viver em desertos informativos, territórios onde praticamente deixou de existir cobertura jornalística regular sobre política local, administração pública, tribunais, escolas ou serviços municipais.
Outros estudos identificaram relações entre o desaparecimento da imprensa local e a diminuição da participação eleitoral, o aumento da polarização política, a redução da transparência administrativa e o enfraquecimento dos mecanismos de escrutínio democrático.
A perda de um jornal revelou-se, afinal, muito mais do que a falência de uma empresa.
Representava o desaparecimento de uma infraestrutura essencial ao funcionamento da vida democrática local.
Foi precisamente esta mudança de perspetiva que começou a alterar o debate político.
Já não se tratava apenas de salvar empresas de comunicação.
Tratava-se de preservar condições mínimas para que as comunidades continuassem a dispor de informação independente sobre decisões que afetam diretamente o seu quotidiano.
As soluções ensaiadas
Perante este cenário, governos, universidades, fundações e organizações da sociedade civil experimentaram diferentes respostas.
As organizações filantrópicas desempenharam um papel decisivo no surgimento de redações sem fins lucrativos, como a ProPublica ou a Texas Tribune, bem como de dezenas de projetos locais espalhados pelos Estados Unidos.
Ao mesmo tempo, vários governos procuraram obrigar as grandes plataformas tecnológicas a compensarem financeiramente os produtores de notícias.
Nos Estados Unidos, o Journalism Competition and Preservation Act foi apresentado repetidamente no Congresso, sem nunca conseguir aprovação definitiva.
No Canadá, o Online News Act procurou seguir caminho semelhante, levando a Meta a bloquear completamente a circulação de notícias no Facebook e no Instagram para utilizadores canadianos.
Na Califórnia, propostas de natureza semelhante acabaram igualmente por ser profundamente alteradas após forte pressão exercida pelas plataformas tecnológicas.
Apesar das diferenças entre estes casos, todos partilhavam o mesmo objetivo.
A sustentabilidade do jornalismo continuava a depender da tentativa de recuperar parte dos recursos económicos capturados pelas plataformas digitais.
Contudo, à medida que essas iniciativas enfrentavam sucessivos bloqueios políticos e jurídicos, começou lentamente a ganhar força uma pergunta que durante décadas permaneceu praticamente ausente do debate norte-americano.
E se o problema não pudesse ser resolvido apenas pelo mercado?
E se a produção de informação de interesse público devesse passar a integrar, também ela, o conjunto das políticas públicas destinadas a proteger infraestruturas essenciais ao funcionamento da democracia?
Foi precisamente esta mudança de paradigma que levou vários estados norte-americanos a experimentar um caminho até há poucos anos considerado politicamente improvável.
O nascimento de uma nova geração de políticas para os media
A ideia de que o Estado possa apoiar financeiramente o jornalismo continua a suscitar desconforto em muitas democracias liberais. A associação entre financiamento público e independência editorial permanece marcada por receios de interferência política, condicionamento das redações ou criação de relações de dependência entre governos e meios de comunicação.
Durante décadas, essa preocupação contribuiu para afastar qualquer proposta de intervenção pública mais direta no financiamento da imprensa norte-americana. Ao contrário do que sucede em vários países europeus, onde existem sistemas de apoio aos media há várias décadas, nos Estados Unidos consolidou-se a ideia de que a sustentabilidade do jornalismo deveria resultar essencialmente do funcionamento do mercado.
Contudo, a dimensão da crise dos últimos vinte anos começou a alterar profundamente essa perceção.
Perante o encerramento contínuo de jornais locais, a redução das redações e o crescimento dos desertos informativos, a questão deixou progressivamente de ser como salvar empresas jornalísticas. Passou a ser outra: como garantir que as comunidades continuam a dispor de informação independente sobre os assuntos que moldam a sua vida democrática.
Esta alteração pode parecer subtil, mas representa uma mudança profunda na forma como o problema é enquadrado.
Da sustentabilidade económica à infraestrutura democrática
Grande parte da investigação recente sobre políticas para os media tem procurado precisamente deslocar o foco do debate.
Em vez de analisar o jornalismo apenas enquanto setor económico, vários investigadores defendem que este deve ser entendido como uma infraestrutura essencial ao funcionamento das democracias.
Victor Pickard é provavelmente um dos autores que mais tem contribuído para esta mudança conceptual. Nas suas obras sobre economia política da comunicação, argumenta que o desaparecimento do jornalismo local não constitui apenas uma crise empresarial. Representa igualmente uma falha na produção de um bem público indispensável ao exercício da cidadania.
Tal como acontece com outros serviços considerados essenciais, educação, investigação científica, património cultural ou bibliotecas públicas, o valor social da informação não coincide necessariamente com a sua rentabilidade económica.
Uma comunidade pode necessitar de cobertura jornalística sobre decisões municipais, concursos públicos, escolas ou tribunais, mesmo quando essa atividade não gera receitas suficientes para sustentar uma redação através do mercado.
É precisamente esta diferença entre valor público e valor económico que começa a justificar o regresso das políticas públicas ao debate sobre os media.
A questão deixa de ser saber se determinado jornal é lucrativo.
Passa a ser perceber quais são as consequências democráticas da sua ausência.
Porque falharam as respostas anteriores?
Esta mudança também resulta da constatação de que nenhuma das soluções ensaiadas na última década conseguiu inverter a tendência de enfraquecimento do jornalismo local.
As assinaturas digitais revelaram-se fundamentais para algumas organizações nacionais, mas mostraram menor eficácia em mercados locais de pequena dimensão.
A filantropia permitiu o desenvolvimento de projetos inovadores, sobretudo através de organizações sem fins lucrativos, mas permanece fortemente concentrada em grandes centros urbanos e em redações com maior capacidade institucional para captar financiamento.
Por sua vez, as tentativas de obrigar plataformas digitais a remunerarem os produtores de notícias encontraram obstáculos significativos.
Nos Estados Unidos, sucessivas versões do Journalism Competition and Preservation Act nunca chegaram a ser aprovadas pelo Congresso. No Canadá, a aprovação do Online News Act desencadeou uma resposta imediata da Meta, que optou por bloquear totalmente a circulação de notícias nas suas plataformas. Na Califórnia, uma proposta semelhante acabou profundamente alterada após intensa pressão exercida pelas grandes empresas tecnológicas.
Em todos estes casos, o objetivo permanecia essencialmente o mesmo: recuperar parte das receitas publicitárias deslocadas para as plataformas digitais.
Contudo, à medida que estas iniciativas enfrentavam dificuldades políticas e económicas, começou a consolidar-se uma ideia diferente.
Talvez o problema não pudesse ser resolvido apenas através da redistribuição de receitas do mercado digital.
Talvez fosse necessário reconhecer que determinadas funções desempenhadas pelo jornalismo justificam formas próprias de investimento público.
Illinois e o abandono da lógica da exceção
É neste contexto que surge a experiência de Illinois.
À primeira vista, trata-se apenas de um programa de créditos fiscais dirigido a organizações jornalísticas locais. No entanto, o seu significado político é mais profundo.
Em vez de criar subsídios destinados à produção de determinadas reportagens ou linhas editoriais, o Estado optou por apoiar diretamente a manutenção da capacidade jornalística das redações.
Cada jornalista empregado representa um crédito fiscal reembolsável. Novas contratações beneficiam igualmente de incentivos específicos. A utilização desses recursos permanece inteiramente sob responsabilidade das organizações beneficiárias.
A lógica é simples.
O Estado não financia conteúdos.
Financia condições para que o jornalismo continue a existir.
Esta distinção procura responder a uma das principais críticas tradicionalmente dirigidas aos sistemas de apoio público: a possibilidade de interferência editorial.
Naturalmente, nenhum modelo elimina totalmente este risco.
Contudo, mecanismos automáticos, transparentes e definidos por critérios legais procuram reduzir significativamente a margem para decisões discricionárias por parte do poder político.
Mais importante ainda, o programa parte de um princípio diferente daquele que dominou o debate nas últimas décadas.
Não se pretende salvar empresas específicas.
Pretende-se preservar uma capacidade coletiva de produzir informação local.
Uma política para os media, não uma política industrial
Esta diferença merece particular atenção.
Ao longo dos últimos anos, muitas das propostas destinadas ao setor da comunicação foram apresentadas como instrumentos de recuperação económica ou de apoio a empresas em dificuldades.
As experiências atualmente desenvolvidas em vários estados norte-americanos seguem uma lógica distinta.
O objetivo não consiste em proteger um determinado modelo empresarial nem em impedir processos naturais de transformação tecnológica.
O que se procura preservar é uma função social.
Nesse sentido, o financiamento público deixa de ser encarado como uma medida extraordinária para enfrentar uma crise conjuntural.
Passa a integrar uma visão mais ampla sobre o papel das políticas públicas na preservação do pluralismo informativo, da fiscalização democrática e da circulação de informação de interesse público.
Esta aproximação torna-se particularmente evidente quando comparada com outros setores culturais.
Em praticamente todos os países democráticos existem mecanismos públicos destinados a apoiar museus, bibliotecas, arquivos, património, produção cinematográfica ou criação artística. Em muitos casos, ninguém espera que essas atividades sobrevivam exclusivamente através das receitas obtidas no mercado.
A pergunta que começa agora a ganhar espaço é inevitável:
Se a informação desempenha uma função igualmente essencial para a democracia, por que motivo continua a ser tratada de forma diferente?
Um debate que ultrapassa os Estados Unidos
As experiências atualmente em curso nos Estados Unidos não oferecem uma solução definitiva para a crise do jornalismo. Nem os seus próprios promotores o afirmam.
Os programas implementados em estados como Illinois, Nova Jérsia, Nova Iorque ou Novo México representam apenas uma fração dos recursos perdidos pela imprensa local nas últimas duas décadas. Continuam igualmente por resolver problemas relacionados com a concentração da propriedade dos media, a crescente dependência das plataformas digitais, a precarização da profissão jornalística e a dificuldade de encontrar modelos económicos sustentáveis para pequenas redações.
Ainda assim, seria um erro avaliar estas iniciativas apenas pela dimensão dos montantes envolvidos.
O seu principal significado reside na alteração da forma como o problema começa a ser formulado.
Durante muitos anos, a discussão sobre a sustentabilidade do jornalismo foi dominada por uma lógica essencialmente económica. Procuravam-se novos modelos de negócio capazes de substituir as receitas perdidas com o desaparecimento da publicidade impressa. Debatia-se o papel das assinaturas digitais, da publicidade programática, da filantropia, das plataformas tecnológicas ou, mais recentemente, da inteligência artificial.
Todas estas soluções partilhavam um pressuposto comum: o financiamento do jornalismo continuaria a depender predominantemente da capacidade do mercado.
As experiências atualmente desenvolvidas nos Estados Unidos sugerem uma mudança de perspetiva.
Em vez de perguntar como podem as empresas jornalísticas adaptar-se às novas condições económicas, começa a ganhar força uma questão diferente: que responsabilidades deve assumir o poder público quando o mercado deixa de assegurar a produção de informação considerada essencial ao funcionamento da democracia?
Esta alteração representa, talvez, a transformação mais significativa do debate internacional sobre políticas para os media na última década.
A experiência europeia mostra que existem diferentes caminhos
Vista a partir da Europa, esta discussão assume contornos particulares.
Ao contrário dos Estados Unidos, muitos países europeus desenvolveram, ao longo do século XX, diferentes mecanismos de apoio público aos meios de comunicação social. Em países como Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca ou França, subsídios diretos, benefícios fiscais, apoio à distribuição postal ou financiamento do serviço público de rádio e televisão constituem instrumentos consolidados das políticas de media.
Estes modelos nunca estiveram isentos de controvérsia. Pelo contrário, suscitaram debates permanentes sobre independência editorial, critérios de atribuição dos apoios, transparência e pluralismo. Contudo, assentam numa ideia relativamente consensual: determinados objetivos democráticos justificam formas de intervenção pública que ultrapassam a lógica estritamente comercial.
É precisamente por isso que a evolução norte-americana merece atenção.
Não porque esteja a reproduzir os modelos europeus, mas porque rompe com uma tradição política que sempre privilegiou soluções assentes quase exclusivamente no mercado. Durante décadas, qualquer proposta de financiamento público do jornalismo era frequentemente encarada como incompatível com a liberdade de imprensa ou excessivamente interventiva.
O que hoje se observa é diferente.
Os novos programas procuram construir mecanismos automáticos, transparentes e institucionalmente protegidos, reduzindo ao máximo a possibilidade de interferência editorial. Em vez de apoiar conteúdos específicos, procuram financiar capacidades: manter jornalistas empregados, reforçar equipas, promover novas contratações ou garantir que determinadas comunidades continuam a dispor de cobertura informativa regular.
A preocupação desloca-se do financiamento de empresas para a preservação de um ecossistema informativo.
Um novo ciclo nas políticas para os media?
Esta transformação aproxima-se de debates que têm vindo a ganhar expressão na investigação internacional.
Autores como Victor Pickard defendem que a crise do jornalismo exige abandonar a ideia de que a informação de interesse público pode depender exclusivamente dos mecanismos de mercado. Julia Cagé, por sua vez, propõe modelos de governação e financiamento capazes de reduzir a dependência dos media relativamente a interesses económicos ou políticos concentrados. Rodney Benson tem demonstrado que diferentes combinações entre mercado, apoio público e organizações sem fins lucrativos podem produzir sistemas mediáticos mais resilientes e pluralistas do que aqueles que assentam exclusivamente na competição comercial.
Apesar das diferenças entre estas abordagens, existe um ponto comum.
A sustentabilidade do jornalismo deixou de ser encarada apenas como um problema empresarial.
Passou a integrar uma reflexão mais ampla sobre o funcionamento das democracias contemporâneas.
Esta mudança torna-se particularmente relevante num contexto marcado pelo crescimento da desinformação, pela fragmentação das audiências, pela expansão da inteligência artificial generativa e pela crescente concentração do poder económico nas grandes plataformas digitais. À medida que os ecossistemas informativos se tornam mais complexos, aumenta também a perceção de que a produção de informação verificável, contextualizada e localmente relevante possui características de um bem público.
Não significa que o financiamento estatal constitua, por si só, a resposta para todos estes desafios.
Significa, antes, que deixou de ser um tema marginal.
O que permanece em aberto
Os programas atualmente implementados continuam a levantar questões importantes.
Como evitar que futuros governos utilizem estes mecanismos para exercer pressão sobre os meios de comunicação?
Que critérios devem definir quais as organizações elegíveis para receber apoio?
Como assegurar que projetos independentes, meios comunitários ou órgãos dirigidos a minorias linguísticas e étnicas beneficiam igualmente destas políticas?
Será preferível recorrer a incentivos fiscais, a concursos públicos independentes, a fundos geridos por universidades ou a modelos híbridos?
As respostas variam entre os diferentes estados norte-americanos e também entre os países europeus.
É provável que continuem a variar.
O que parece menos provável é o regresso à ideia de que o mercado, por si só, conseguirá reconstruir os ecossistemas locais de informação.
Os dados disponíveis sobre o desaparecimento de jornais, a redução do número de jornalistas e o crescimento dos desertos informativos tornaram essa expectativa cada vez mais difícil de sustentar.
Muito para além de Illinois
É tentador interpretar programas como o de Illinois apenas como uma resposta circunstancial à crise da imprensa local.
No entanto, essa leitura poderá subestimar o verdadeiro alcance destas iniciativas.
Mais do que criar novos mecanismos de financiamento, estes programas representam uma alteração na forma como o jornalismo começa a ser entendido pelos decisores políticos.
Ao reconhecer que determinadas comunidades deixam de dispor de informação essencial quando desaparecem as suas redações locais, o debate desloca-se do plano económico para o plano democrático.
A pergunta deixa de ser apenas como financiar jornais.
Passa a ser como garantir que os cidadãos continuam a ter acesso a informação independente sobre os assuntos que moldam a sua vida coletiva.
É essa mudança de enquadramento que poderá marcar a próxima geração de políticas para os media.
Ainda é cedo para saber se as experiências desenvolvidas nos Estados Unidos produzirão resultados duradouros ou se permanecerão iniciativas limitadas a alguns estados. Também é cedo para avaliar de que forma poderão influenciar outros países.
Mas uma conclusão parece já evidente.
Durante mais de vinte anos, a sustentabilidade do jornalismo foi discutida quase exclusivamente em termos de inovação tecnológica, modelos de negócio e adaptação ao mercado digital. Hoje, sem abandonar essas dimensões, o debate começa a incorporar uma questão que parecia afastada da agenda política norte-americana: qual deve ser o papel do Estado na preservação das condições que tornam possível a existência de um jornalismo capaz de servir o interesse público?
Mais do que uma resposta definitiva, as experiências em curso sugerem que o futuro do jornalismo poderá depender não apenas da capacidade das redações para inovar, mas também da forma como as democracias decidem reconhecer, ou não, a informação de interesse público como uma infraestrutura essencial à vida democrática.

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