Voltar para as notícias

Parlamento Europeu coloca a literacia mediática no centro da agenda digital europeia

Julho 16, 2026

Nova resolução defende uma estratégia europeia para reforçar as competências mediáticas e digitais dos cidadãos perante os desafios colocados pela Inteligência Artificial, pelas plataformas digitais e pela desinformação.

A literacia mediática voltou a ocupar um lugar de destaque na agenda política europeia. No passado dia 7 de julho, o Parlamento Europeu aprovou uma resolução que defende o reforço das políticas de literacia mediática e aprendizagem digital em toda a União Europeia, reconhecendo-as como competências essenciais para todos os cidadãos. A resolução foi aprovada por larga maioria e surge num momento em que a Inteligência Artificial, as plataformas digitais e os novos modelos de circulação da informação estão a transformar profundamente o espaço público europeu.

Embora o documento não tenha natureza legislativa, constitui um importante sinal político sobre as prioridades que deverão orientar as futuras políticas europeias nesta área. Entre as recomendações apresentadas encontram-se o reforço da educação para os media ao longo da vida, a proteção dos menores no ambiente digital, novas orientações para influenciadores digitais e uma maior preparação dos cidadãos para reconhecer conteúdos manipulados, técnicas persuasivas e informação produzida por sistemas de Inteligência Artificial.

Mais do que anunciar novas medidas, a resolução evidencia uma mudança na forma como a União Europeia encara a própria literacia mediática. O documento deixa claro que compreender criticamente o ambiente digital já não pode ser visto como uma competência complementar, mas como uma condição necessária para participar plenamente na vida democrática.

Uma visão mais ampla da literacia mediática

Um dos aspetos mais relevantes da resolução prende-se precisamente com a evolução do conceito de literacia mediática. Durante vários anos, o debate europeu centrou-se sobretudo na necessidade de combater a desinformação e desenvolver competências de verificação da informação. Embora essas dimensões continuem presentes, o Parlamento propõe agora uma abordagem bastante mais abrangente.

Segundo o documento, os cidadãos devem ser capazes de compreender como funcionam as plataformas digitais, reconhecer mecanismos de design que procuram prolongar o tempo de utilização, identificar conteúdos editoriais, comerciais e sintéticos, distinguir informação produzida por Inteligência Artificial e compreender as técnicas persuasivas utilizadas na comunicação digital.

Esta perspetiva representa uma evolução significativa relativamente às abordagens tradicionais da educação para os media. O foco deixa de estar apenas na análise crítica das mensagens para incluir igualmente uma compreensão dos sistemas tecnológicos que condicionam a produção, distribuição e circulação da informação. A literacia mediática passa, assim, a integrar dimensões relacionadas com algoritmos, plataformas, modelos de negócio digitais e Inteligência Artificial.

Um desafio que vai muito além da escola

Outro dos aspetos centrais da resolução consiste na defesa de uma estratégia de aprendizagem ao longo da vida. Os eurodeputados consideram que a literacia mediática não pode permanecer circunscrita aos currículos escolares, devendo envolver cidadãos de todas as idades e diferentes setores da sociedade.

Esta orientação acompanha uma tendência já identificada por diversas organizações internacionais. A UNESCO, a Comissão Europeia e vários projetos de investigação financiados pela União Europeia têm vindo a defender que o desenvolvimento de competências mediáticas exige uma articulação entre escolas, universidades, bibliotecas, meios de comunicação social, organizações da sociedade civil e instituições públicas.

Ao mesmo tempo, a resolução alerta para a necessidade de garantir que a utilização de ferramentas digitais na educação não fique excessivamente dependente de interesses comerciais das grandes plataformas tecnológicas, defendendo que qualquer cooperação com o setor privado seja orientada pelo interesse público.

Jovens digitais não significam cidadãos mediaticamente preparados

O documento ganha particular relevância quando analisado à luz dos dados mais recentes sobre os hábitos digitais dos europeus. Segundo a Comissão Europeia, 97% dos jovens da União Europeia utilizam diariamente a Internet e as redes sociais assumem hoje um papel central enquanto fonte de informação entre os 15 e os 24 anos.

Estes dados mostram que o principal desafio deixou de ser o acesso às tecnologias. As novas gerações cresceram num ambiente profundamente digital e utilizam diariamente múltiplas plataformas para comunicar, aprender e informar-se. Contudo, a familiaridade tecnológica não corresponde necessariamente ao desenvolvimento de competências críticas.

É precisamente esta diferença que a resolução procura evidenciar. Saber utilizar aplicações, redes sociais ou sistemas de Inteligência Artificial não implica compreender os processos através dos quais a informação é selecionada, organizada, recomendada ou amplificada. Neste sentido, a literacia mediática surge como uma competência indispensável para interpretar criticamente o funcionamento do ambiente digital.

Plataformas, influenciadores e novas responsabilidades

Entre as recomendações apresentadas pelo Parlamento Europeu destaca-se igualmente a preocupação com o papel crescente dos influenciadores digitais na formação da opinião pública, sobretudo entre os públicos mais jovens.

Os eurodeputados defendem que estes criadores de conteúdos passem a estar sujeitos a orientações mais claras relativamente à transparência, responsabilidade e identificação dos conteúdos que produzem, aproximando-os das exigências já aplicáveis aos meios de comunicação social em determinadas matérias.

Paralelamente, a resolução aponta para a necessidade de reforçar a proteção dos menores nas plataformas de partilha de vídeos durante a futura revisão da Diretiva dos Serviços de Comunicação Social Audiovisual. A proposta reconhece que os ambientes digitais se tornaram hoje espaços fundamentais de socialização, aprendizagem e consumo de informação, exigindo mecanismos de proteção mais robustos.

Um sinal político para o futuro da cidadania digital

Embora a resolução não produza efeitos jurídicos imediatos, a sua importância reside na orientação política que estabelece para os próximos anos. O documento demonstra que a União Europeia começa a encarar a literacia mediática não apenas como uma resposta à desinformação, mas como uma política estrutural para enfrentar os desafios colocados pela Inteligência Artificial, pelas plataformas digitais e pela transformação dos ecossistemas informativos.

Mais do que ensinar os cidadãos a verificar notícias, o objetivo passa agora por desenvolver competências que permitam compreender criticamente os ambientes digitais onde essas notícias circulam. Esta mudança acompanha uma tendência crescente na investigação em comunicação e literacia mediática, que tem vindo a defender uma visão mais integrada da cidadania digital, articulando competências tecnológicas, pensamento crítico, participação democrática e compreensão dos processos de produção e circulação da informação.