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“Media literacy requires media education, not simply digital literacy”: David Buckingham alerta para a necessidade de repensar a educação para os media na era digital

Agosto 25, 2026

Durante vários anos, a expressão literacia digital ocupou um lugar central nas políticas educativas, nos programas de inovação pedagógica e nas estratégias de transformação digital das escolas. Aprender a utilizar tecnologias, desenvolver competências digitais ou preparar os cidadãos para uma sociedade cada vez mais conectada tornou-se um objetivo comum de governos, organizações internacionais e instituições de ensino. No entanto, para David Buckingham, uma das mais influentes vozes da educação para os media, esta evolução acabou por deslocar para segundo plano uma dimensão essencial: a educação para os media.

No artigo Rethinking Digital Literacy: Media Education in the Age of Digital Capitalism, publicado na revista Digital Education Review, Buckingham defende que a resposta aos desafios do atual ecossistema digital não pode limitar-se ao desenvolvimento de competências técnicas. Pelo contrário, exige recuperar uma tradição de educação crítica para os media que permita compreender como são produzidas, distribuídas e interpretadas as mensagens que diariamente circulam nas plataformas digitais.

A reflexão ganha particular atualidade num momento em que a inteligência artificial generativa, os algoritmos de recomendação e a desinformação voltam a colocar a literacia mediática no centro do debate internacional.

Da promessa da Internet ao capitalismo digital

Buckingham começa por revisitar o entusiasmo que acompanhou a expansão da Internet e das tecnologias digitais nas últimas décadas. Durante muito tempo, acreditou-se que o acesso generalizado às tecnologias transformaria a educação, democratizaria o conhecimento e criaria cidadãos mais participativos e informados.

Essa visão esteve na origem de inúmeras políticas públicas orientadas para a distribuição de equipamentos tecnológicos, para o ensino de competências digitais e para a integração das tecnologias nas escolas.

Contudo, segundo o autor, a realidade mostrou-se bastante mais complexa. O ambiente digital deixou de ser um espaço descentralizado e passou a ser dominado por um pequeno conjunto de plataformas globais que concentram dados, publicidade, circulação da informação e modelos de negócio assentes na economia da atenção. É neste contexto que Buckingham utiliza a expressão “capitalismo digital”, chamando a atenção para a necessidade de compreender que as tecnologias não são neutras, sendo profundamente influenciadas por interesses económicos, políticos e comerciais.

Esta perspetiva aproxima-se das análises desenvolvidas por investigadores como Shoshana Zuboff, José van Dijck, Thomas Poell ou Nick Couldry, que têm demonstrado como as plataformas digitais reorganizaram profundamente a forma como produzimos, distribuímos e consumimos informação.

Competências digitais não são suficientes

Uma das principais ideias defendidas por Buckingham é que existe uma diferença importante entre saber utilizar tecnologias e compreender criticamente o ambiente mediático.

Ao longo dos últimos anos, muitos programas de literacia digital privilegiaram competências operacionais: aprender a utilizar aplicações, navegar na Internet, produzir documentos digitais ou dominar novas ferramentas tecnológicas.

Embora reconheça a importância destas competências, Buckingham considera que elas são insuficientes para responder aos desafios atuais. Saber utilizar uma plataforma não significa compreender como funciona o seu algoritmo. Publicar um vídeo numa rede social não implica compreender os mecanismos económicos que determinam a sua circulação. Utilizar uma ferramenta de inteligência artificial também não garante que o utilizador compreenda os riscos associados aos enviesamentos, à opacidade dos modelos ou à produção automatizada de conteúdos.

É precisamente aqui que a educação para os media assume um papel central.

Recuperar a tradição da educação para os media

Para Buckingham, a educação para os media possui um património conceptual construído ao longo de várias décadas que continua plenamente atual.

Entre os conceitos fundamentais encontram-se quatro dimensões que permanecem essenciais para analisar qualquer mensagem mediática.

A primeira diz respeito à linguagem. Todos os conteúdos utilizam escolhas narrativas, visuais, sonoras e discursivas que influenciam a forma como interpretamos a realidade.

A segunda centra-se na representação. Os media nunca reproduzem o mundo de forma neutra; selecionam acontecimentos, escolhem protagonistas, constroem enquadramentos e atribuem significados.

A terceira dimensão corresponde à produção. Importa compreender quem produz determinado conteúdo, quais os interesses envolvidos, que recursos foram utilizados e quais os modelos económicos que sustentam essa produção.

Finalmente, Buckingham destaca a importância das audiências. Os públicos não recebem passivamente as mensagens; interpretam-nas, negoceiam significados e atribuem-lhes diferentes sentidos consoante as suas experiências e contextos sociais.

Muito para além das fake news

Nos últimos anos, a literacia mediática tem sido frequentemente associada ao combate à desinformação.

Embora reconheça a importância deste desafio, Buckingham alerta para o risco de reduzir toda a educação para os media à identificação de notícias falsas.

Segundo o investigador, a desinformação constitui apenas uma manifestação de problemas muito mais profundos relacionados com o funcionamento das plataformas digitais, os modelos económicos da publicidade, a polarização política e a lógica algorítmica que privilegia conteúdos emocionalmente apelativos.

Por isso, ensinar apenas listas de verificação para distinguir informação verdadeira de informação falsa dificilmente resolverá o problema. O verdadeiro desafio consiste em compreender como são produzidas as mensagens, quem beneficia da sua circulação, que estratégias de persuasão utilizam e como diferentes audiências lhes atribuem significado.

Esta posição aproxima-se igualmente das reflexões de Renee Hobbs, Sonia Livingstone e Paul Mihailidis, que defendem uma literacia mediática orientada para o pensamento crítico, a participação democrática e a compreensão das estruturas de poder presentes nos media.

A inteligência artificial torna este debate ainda mais urgente

Quando Buckingham publicou este artigo, a inteligência artificial generativa ainda não ocupava o lugar central que hoje assume no debate público. No entanto, muitas das suas reflexões revelam-se particularmente pertinentes perante a rápida expansão de ferramentas capazes de produzir textos, imagens, vídeos e áudios altamente convincentes.

Num ambiente onde conteúdos sintéticos convivem diariamente com informação jornalística, publicidade, entretenimento e comunicação institucional, torna-se ainda mais importante compreender quem produz as mensagens, que interesses representam e como se constrói a sua credibilidade.

Também a UNESCO, a Comissão Europeia e a National Association for Media Literacy Education têm vindo a reforçar esta ideia, defendendo que a educação para os media deve integrar competências relacionadas com algoritmos, inteligência artificial, cidadania digital, transparência informativa e participação democrática.

Educação e regulação devem caminhar em conjunto

Outro aspeto relevante do texto de Buckingham prende-se com a relação entre educação e políticas públicas.

O autor considera que seria um erro atribuir exclusivamente aos cidadãos ou às escolas a responsabilidade por resolver os problemas do ambiente digital. Questões relacionadas com transparência algorítmica, concentração económica, proteção de dados ou responsabilização das plataformas exigem igualmente respostas regulatórias.

A educação para os media pode contribuir para formar cidadãos mais críticos e participativos, mas não substitui a necessidade de políticas públicas capazes de promover ecossistemas mediáticos mais transparentes e democráticos.

Um debate que continua atual

Num contexto em que a inteligência artificial redefine a produção de conteúdos, os algoritmos condicionam o acesso à informação e as plataformas digitais assumem um papel crescente na vida democrática, as reflexões de David Buckingham continuam particularmente relevantes.

Mais do que ensinar a utilizar tecnologias, o investigador recorda que importa compreender os sistemas que lhes dão forma, os interesses que condicionam a circulação da informação e as relações de poder presentes nos ambientes digitais.

É talvez essa a principal mensagem do seu artigo. A literacia mediática não pode ser reduzida a competências técnicas nem a estratégias de combate à desinformação. Exige uma educação para os media consistente, capaz de desenvolver pensamento crítico, promover cidadania e ajudar os cidadãos a compreender um ecossistema mediático cada vez mais complexo.

Num tempo em que a transformação digital ocupa o centro das políticas educativas, a reflexão de David Buckingham constitui um importante lembrete de que a verdadeira inovação pedagógica não depende apenas da introdução de novas tecnologias nas escolas, mas da capacidade de ensinar a questioná-las, interpretá-las e compreendê-las criticamente. É precisamente nesse sentido que a afirmação que dá título ao artigo permanece atual: a literacia mediática continua a exigir, antes de mais, educação para os media.