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Mais comentários não significam melhor debate. O que um novo estudo revela sobre o futuro da participação no jornalismo

Agosto 14, 2026

Durante mais de duas décadas, uma parte importante da transformação digital do jornalismo foi medida através de indicadores relativamente simples: visualizações, partilhas, tempo de leitura ou número de comentários. A lógica parecia evidente. Quanto maior fosse a participação das audiências, maior seria o impacto do jornalismo.

No entanto, à medida que o ecossistema informativo se tornou mais fragmentado e polarizado, essa relação começou a ser questionada. As caixas de comentários passaram a ser frequentemente associadas a discurso de ódio, polarização, desinformação e ataques pessoais, levando muitas organizações noticiosas a encerrá-las ou a investir fortemente na sua moderação. Paralelamente, investigadores como Rasmus Kleis Nielsen, Nikki Usher e Pablo Boczkowski começaram a defender que o verdadeiro desafio já não consistia em aumentar o engagement, mas em compreender que tipo de participação o jornalismo consegue promover.

É precisamente neste debate que se insere um novo estudo publicado na revista Journalism Studies e apresentado recentemente pelo Nieman Journalism Lab. A investigação de Avner Kantor e Sheizaf Rafaeli analisou cerca de um milhão de comentários publicados em 6.400 artigos do The New York Times entre 2014 e 2022, procurando responder a uma questão simples: será que um jornalismo mais rico em dados, contexto e evidência produz conversas diferentes entre os leitores?

Os resultados mostram que sim. Mas revelam também um paradoxo que desafia muitas das métricas atualmente utilizadas pelas organizações jornalísticas.

O debate mudou: do engagement para a qualidade da participação

Durante muitos anos, a investigação sobre comentários online centrou-se sobretudo nos problemas associados à participação digital: incivilidade, toxicidade, desinformação ou moderação. A própria decisão de vários meios internacionais de encerrarem as caixas de comentários parecia confirmar que estes espaços produziam mais custos do que benefícios.

Hoje, porém, a discussão está a deslocar-se. Em vez de perguntar apenas como moderar comunidades digitais, investigadores e profissionais começam a perguntar que condições favorecem um debate público mais informado.

Esta mudança acompanha uma transformação mais ampla no estudo das audiências. Rasmus Kleis Nielsen tem defendido que a sustentabilidade do jornalismo depende menos da capacidade de alcançar grandes audiências e mais da construção de relações de confiança e valor com diferentes comunidades de públicos. Pablo Boczkowski, por sua vez, tem mostrado que as formas de consumo de notícias dependem cada vez mais dos contextos sociais, das plataformas e dos próprios formatos editoriais. Já Nikki Usher tem alertado que as escolhas tecnológicas das redações influenciam profundamente a forma como os cidadãos interagem com a informação.

Neste contexto, a caixa de comentários deixa de ser vista apenas como um espaço de reação e passa a ser entendida como uma extensão da própria experiência jornalística.

O que acontece quando o jornalismo oferece mais contexto?

Foi precisamente esta hipótese que Kantor e Rafaeli decidiram testar.

Os investigadores compararam milhares de artigos publicados pela secção The Upshot, especializada em jornalismo de dados, com notícias mais tradicionais do The New York Times. Para cada artigo avaliaram diversos elementos, incluindo densidade informativa, utilização de estatísticas, número de fontes, presença de visualizações e grau de análise presente na escrita.

Posteriormente analisaram quase um milhão de comentários associados a essas notícias.

Os resultados revelam um padrão consistente.

Sempre que os artigos apresentavam mais contexto, maior utilização de dados, estatísticas e fontes externas, os leitores tendiam a produzir comentários mais estruturados, recorrendo com maior frequência a argumentos, evidências e raciocínio analítico. Além disso, aumentava significativamente a interação entre os próprios leitores, transformando a caixa de comentários num espaço de discussão e não apenas de reação imediata à notícia.

Curiosamente, o elemento decisivo não foram as visualizações gráficas.

Os autores verificaram que gráficos e infografias ajudam, mas aquilo que verdadeiramente altera o tipo de conversa é a combinação entre escrita analítica, utilização de dados e contextualização jornalística.

Por outras palavras, não é o gráfico que melhora o debate. É o trabalho jornalístico que permite compreender aquilo que o gráfico representa.

O paradoxo da informação

Mas a investigação revela também um segundo resultado, talvez ainda mais relevante.

As mesmas notícias que originavam discussões mais analíticas eram também aquelas que recebiam menos comentários.

Quanto maior era a densidade informativa do artigo, menor tendia a ser o número de pessoas dispostas a participar.

Em sentido inverso, conteúdos mais emocionais e menos exigentes do ponto de vista analítico geravam um maior volume de participação.

Este resultado obriga a repensar uma das métricas mais utilizadas na avaliação do sucesso editorial.

Durante muitos anos, mais comentários foram frequentemente interpretados como sinal de maior engagement.

O estudo mostra que a relação poderá ser exatamente a oposta.

Mais comentários podem significar simplesmente mais reações emocionais.

Menos comentários podem esconder debates muito mais ricos, fundamentados e deliberativos.

Informação de qualidade também produz melhores condições para deliberar

Esta conclusão aproxima-se de um conjunto de investigações recentes sobre democracia deliberativa e esfera pública digital.

Autores como Yochai Benkler, Matt Carlson ou Barbie Zelizer têm insistido que o papel do jornalismo não consiste apenas em distribuir informação, mas em criar condições para que os cidadãos possam discutir assuntos públicos de forma informada.

Matt Carlson, por exemplo, tem mostrado que a autoridade jornalística depende cada vez menos da posição institucional das redações e cada vez mais da sua capacidade para demonstrar transparência, rigor e responsabilidade perante os públicos. Já Barbie Zelizer recorda que o jornalismo deve ser entendido como uma prática de construção de conhecimento coletivo e não apenas como um processo de transmissão de informação.

O estudo de Kantor e Rafaeli fornece agora evidência empírica para esta discussão.

Ao produzir notícias mais contextualizadas e sustentadas em evidência, o jornalismo parece criar melhores condições para formas de participação mais próximas da deliberação do que da simples reação.

Um desafio para as redações

Os resultados colocam também uma questão prática para as organizações jornalísticas.

Num ambiente mediático dominado por métricas de desempenho, será legítimo continuar a avaliar o impacto de uma notícia apenas através do número de comentários, partilhas ou cliques?

Se uma reportagem gera menos participação mas promove discussões mais fundamentadas entre os leitores, poderá estar a cumprir de forma mais eficaz a função democrática do jornalismo.

Esta reflexão ganha ainda maior relevância numa altura em que muitas redações procuram reconstruir relações de confiança com os seus públicos. O próprio Reuters Institute tem sublinhado que a sustentabilidade futura do jornalismo dependerá cada vez mais da qualidade das relações estabelecidas com as audiências e menos da simples maximização do alcance. A confiança, o engagement e a participação tornam-se, assim, dimensões interdependentes.

O que significa isto para a literacia mediática?

A investigação deixa também uma mensagem importante para o campo da literacia mediática.

Frequentemente, a capacidade crítica dos cidadãos é entendida como uma competência exclusivamente individual: saber verificar fontes, distinguir factos de opiniões ou reconhecer conteúdos manipulados.

Contudo, o estudo lembra que essa competência depende igualmente da qualidade da informação disponível.

É muito mais fácil desenvolver pensamento crítico quando o próprio jornalismo oferece contexto, dados, evidência e explicações que permitem aos cidadãos construir interpretações fundamentadas.

Neste sentido, literacia mediática e qualidade do jornalismo não podem ser pensadas separadamente.

Uma cidadania crítica exige competências individuais, mas também um ecossistema informativo capaz de sustentar debates públicos mais informados.

Talvez seja precisamente esta a principal conclusão da investigação.

Durante anos perguntámos como aumentar o engagement.

Hoje, a pergunta parece ser outra.

Não basta que mais pessoas comentem as notícias.

Importa perceber se o jornalismo consegue criar condições para que essas conversas sejam mais informadas, mais críticas e mais relevantes para a vida democrática.