XIX IBERCOM reúne em Braga investigadores de diferentes países para debater os desafios contemporâneos da comunicação
July 6, 2026O congresso internacional começa esta segunda-feira, na Universidade do Minho, e propõe quatro dias de debate sobre as transformações políticas, sociais, culturais e tecnológicas que atravessam o campo da comunicação.
Braga recebe, a partir desta segunda-feira, 6 de julho, a XIX edição do IBERCOM – Congresso Ibero-Americano de Comunicação, um dos principais espaços de encontro e debate da comunidade científica da área da comunicação no espaço ibero-americano. O evento decorre na Universidade do Minho até 9 de julho e reúne investigadores de diferentes países para discutir algumas das questões que atualmente desafiam os media, o jornalismo, a cultura digital e as sociedades contemporâneas.
Organizado pela ASSIBERCOM – Associação Ibero-Americana de Comunicação, pelo Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade (CECS) e pela SOPCOM – Associação Portuguesa de Ciências da Comunicação, o XIX IBERCOM desenvolve-se através de sessões plenárias, apresentações de livros, sessões paralelas e atividades culturais e sociais.
Ao longo dos quatro dias, o congresso coloca em diálogo diferentes perspetivas teóricas, metodológicas e geográficas sobre as transformações em curso no campo da comunicação. Inteligência artificial, desinformação, jornalismo, plataformas digitais, cidadania, políticas de comunicação, literacia mediática, algoritmos, participação, ativismos e transformações do espaço público encontram-se entre os temas que atravessam um programa marcado pela diversidade de objetos e abordagens de investigação.
Mais do que refletir a amplitude atual dos estudos de comunicação, o programa evidencia a crescente necessidade de compreender fenómenos que já não podem ser analisados de forma isolada. A expansão da inteligência artificial, a plataformização da comunicação, as mudanças nas formas de produção e consumo de informação, a circulação da desinformação e as novas disputas em torno da participação e da cidadania exigem abordagens capazes de articular tecnologia, cultura, política, educação e sociedade.
Um espaço de debate sobre as tensões contemporâneas da comunicação
O congresso tem início esta segunda-feira com a sessão plenária “Cartografia de tensões globais e locais: agendas, ruturas e ativismos”, que reúne Dorismilda Flores-Márquez, da Universidad La Salle Bajío, Isabel Ruíz-Mora, da Universidad de Málaga, e Fábio Ribeiro, da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro, responsável pela moderação.
A escolha do tema para abrir o encontro acompanha algumas das principais questões que atravessam o programa científico desta edição. Num ecossistema comunicacional marcado por profundas assimetrias económicas e tecnológicas, conflitos políticos, transformações culturais e novas formas de mobilização social, compreender a relação entre dinâmicas globais e realidades locais tornou-se um dos desafios centrais da investigação em comunicação.
Durante a tarde, têm início as primeiras sessões paralelas, organizadas em diferentes áreas temáticas. Entre os trabalhos apresentados encontram-se investigações sobre propaganda e teoria da comunicação, proteção de dados, imigração e cobertura jornalística, cidadania digital, participação em contexto escolar, culturas de criadores digitais, algoritmos, riscos climáticos, comunicação organizacional, inteligência artificial, desinformação eleitoral, jornalismo e plataformas digitais.
Esta diversidade permite observar como algumas das questões mais urgentes do atual ecossistema informativo atravessam diferentes áreas dos estudos de comunicação e exigem respostas interdisciplinares.
Inteligência artificial, desinformação e literacia mediática em debate
Entre os temas com particular interesse para a área de atuação do MILObs – Observatório sobre Media, Informação e Literacia encontram-se a desinformação, a literacia mediática, a inteligência artificial, o jornalismo, a cidadania digital e o funcionamento das plataformas.
O programa inclui investigações sobre o uso da inteligência artificial em casos de desinformação nas eleições presidenciais portuguesas, políticas e regulação da IA, infraestruturas tecnológicas e espaço público digital, narrativas produzidas por chatbots, literacia mediática junto de pessoas com desafios cognitivos, análise discursiva da verificação de factos e processos de produção jornalística em organizações de fact-checking.
Outros trabalhos analisam a relação entre inteligência artificial e redações jornalísticas, conteúdos sintéticos, regulação e autorregulação no jornalismo, visibilidade algorítmica, consumo de notícias nas redes sociais e os desafios colocados pelas novas tecnologias às práticas profissionais da comunicação.
A presença significativa destes temas no programa demonstra como a investigação em comunicação acompanha um ecossistema informativo em rápida transformação. A inteligência artificial, a desinformação e o poder crescente das plataformas deixaram de constituir áreas periféricas de investigação para se tornarem questões centrais na compreensão das sociedades contemporâneas.
Quatro sessões plenárias para pensar o presente e o futuro da comunicação
O programa científico integra quatro sessões plenárias.
Depois da sessão inaugural dedicada às tensões entre dinâmicas globais e locais, o segundo dia do congresso, 7 de julho, inclui a sessão “Os 40 anos da Assibercom”, com Margarida Maria Krohling Kunsch, da Universidade de São Paulo, Raul Fuentes Navarro, da Universidad de Guadalajara, e Xosé Lopes Garcia, da Universidade de Santiago de Compostela. A moderação estará a cargo de Moisés Martins.
No dia 8 de julho, a terceira sessão plenária será dedicada às Equipas Permanentes de Investigação (EPI) da Assibercom, abordando questões relacionadas com política científica, comunicação científica e pós-graduação.
Participam Madalena Oliveira, da Universidade do Minho, Ana Amorós-Pons, da Universidade de Vigo, e Rosângela Florczak de Oliveira, da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul, numa sessão moderada por Rosa Franquet.
A última plenária, “Os média e as práticas comunicacionais como espaços de resistência, criação e transformação social”, reúne João Figueira, da Universidade de Coimbra, Cicilia Peruzzo, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, e José Bragança de Miranda, da Universidade Lusófona, com moderação de Paulo Serra, da Universidade da Beira Interior.
As quatro sessões refletem uma preocupação transversal do congresso: compreender simultaneamente as transformações do campo científico da comunicação e as mudanças políticas, sociais e tecnológicas que desafiam investigadores, profissionais dos media e cidadãos.
Um programa marcado pela diversidade da investigação ibero-americana
As dezenas de sessões paralelas previstas para os dias 6, 7 e 8 de julho abrangem diferentes domínios temáticos, incluindo epistemologia, teoria e metodologia da comunicação; comunicação, política e economia política; comunicação e cidadania; comunicação e identidades culturais; comunicação e cultura digital; discursos e estéticas da comunicação; receção e consumo; comunicação organizacional; televisão e cinema; rádio e meios sonoros; jornalismo; história da comunicação; e folkcomunicação e culturas populares.
Esta amplitude temática permite colocar em diálogo tradições científicas, objetos de estudo e metodologias distintas, reforçando uma das características fundamentais do IBERCOM: a construção de um espaço de cooperação e circulação do conhecimento entre investigadores do universo ibero-americano.
O programa inclui ainda a apresentação de dez livros dedicados a temas como género e comunicação, memória, cibercultura, comunicação organizacional, semiótica, consumo e museus.
As atividades presenciais decorrem entre 6 e 8 de julho. No dia 9, o congresso prossegue em formato online, com novas sessões paralelas, antes do encerramento oficial.
Comunicação, democracia e transformação social
A realização do XIX IBERCOM ocorre num momento particularmente desafiante para o campo da comunicação. A rápida expansão da inteligência artificial generativa, as mudanças nas práticas de consumo de informação, a crise dos modelos tradicionais de jornalismo, a crescente influência dos algoritmos e das plataformas digitais e a persistência da desinformação obrigam a repensar conceitos, metodologias e formas de intervenção.
Neste contexto, encontros científicos internacionais desempenham um papel que ultrapassa a apresentação de resultados de investigação. Constituem espaços para confrontar perspetivas, identificar problemas emergentes, construir redes de colaboração e discutir de que forma o conhecimento produzido pelas ciências da comunicação pode contribuir para responder aos desafios das sociedades contemporâneas.
Ao reunir em Braga investigadores de diferentes países e tradições académicas, o XIX IBERCOM oferece um espaço privilegiado para pensar criticamente estas transformações e para discutir o papel da comunicação perante sociedades atravessadas por profundas mudanças tecnológicas, políticas e culturais.
Para o MILObs, muitos dos debates presentes no congresso dialogam diretamente com questões centrais da literacia mediática e informacional. Compreender os mecanismos de circulação da informação, analisar criticamente o papel das plataformas e dos algoritmos, investigar os impactos da inteligência artificial e fortalecer as capacidades dos cidadãos para participar de forma informada no espaço público são desafios que exigem uma aproximação crescente entre investigação, educação e sociedade.
Durante quatro dias, Braga torna-se, assim, um ponto de encontro para a investigação ibero-americana em comunicação. Mais do que apresentar respostas definitivas, o XIX IBERCOM abre espaço para formular novas perguntas sobre um ecossistema comunicacional em permanente transformação e sobre o papel que investigadores, profissionais, instituições e cidadãos podem desempenhar na construção do seu futuro.