“Uma certa militância tem sido determinante para o desenvolvimento da literacia mediática e da informação nas escolas”
A 8 de setembro de 2025, Marisa Mourão defendeu a tese de doutoramento intitulada “A literacia para os media e a informação no contexto escolar português: estudo sobre práticas e políticas em instituições de ensino público”. Em entrevista ao MILObs, apresenta alguns dos principais resultados.
MILObs: Analisou, no seu projeto de doutoramento, os projetos educativos de 425 agrupamentos e escolas não agrupadas. Como caracteriza o lugar dos media e de uma educação para os media nestes espaços de ensino?
Marisa Mourão: Os media, sobretudo os digitais, estão presentes nas escolas através de distintas vias. Encontramos os meios de comunicação como uma ferramenta de contacto e de divulgação, como recursos educativos, mas também os encontramos associados à promoção da literacia para os media e a informação (LMI). Nos 425 agrupamentos e escolas não agrupadas em estudo, identificou-se, em 84,94% dos casos, menções explícitas e/ou implícitas que podem indicar a promoção da LMI (objetivos e projetos/iniciativas). É, contudo, importante olharmos para este valor com certa cautela. Percebe-se que nem todos os aspetos da LMI são objeto de particular atenção. A literacia digital é sem dúvida uma área em destaque, sendo a mais mencionada. Além disso, esta surge, em alguns casos, associada a uma abordagem puramente instrumental: a promoção da literacia digital para servir as práticas educativas e/ou para facilitar a comunicação interna e externa das instituições educativas. Em termos de projetos e iniciativas, destaca-se a existência dos media escolares, sobretudo jornais. Ainda assim, mais uma vez, aqui, não se pode ignorar uma possível abordagem instrumental destes projetos. Raramente se encontra uma relação imediata com a LMI, sendo antes enfatizados a divulgação das atividades das escolas e/ou o potencial pedagógico destes projetos. Ainda nos projetos e iniciativas e sob outra abordagem, há ainda um espaço significativo para literacia fílmica, principalmente por via do Plano Nacional Cinema. Estes dados, juntamente com os dos 529 questionários a professores e das entrevistas com responsáveis em 15 agrupamentos realizadas no domínio deste projeto, apontam para uma conclusão central deste estudo: os media são omnipresentes e as práticas com potencial de promoção da LMI existem e têm já um espaço significativo, mas destacam-se objetivos instrumentais e funcionais de uso dos media.
MILObs: A educação para os media está restringida a uma disciplina, como Cidadania ou Desenvolvimento, ou os projetos educativos abrem espaço para iniciativas mais ligadas a formas de aprendizagem não-formal nas escolas e bibliotecas?
Marisa Mourão: Os projetos educativos, em conjunto com os resultados dos questionários e das entrevistas, mostram que há diversas possibilidades de integração da educação para os media nas escolas. Não está limitada à disciplina de Cidadania e Desenvolvimento. Se procurarmos agregar estas possibilidades, poderíamos dizer que estas atividades podem ser enquadradas em projetos do agrupamento/escola (por vezes, articulados com iniciativas locais/ nacionais/ internacionais), podem emergir da articulação com o trabalho das bibliotecas escolares e/ou estar integradas nas várias disciplinas, em particular na Cidadania e Desenvolvimento. A biblioteca escolar continua a apresentar-se como um importante agente, apesar de não ter o mesmo papel em todas as instituições: há casos em que as atividades de LMI do agrupamento estão centralizadas na biblioteca escolar e há outros em que a biblioteca tem apenas uma expressão marginal.
MILObs: Que constrangimentos identificou ao desenvolvimento da literacia mediática nas escolas? E, em sentido contrário, o que é que tem incentivado e impulsionado as iniciativas que existem?
Marisa Mourão: A falta de tempo é sem dúvida o maior constrangimento, um constrangimento amplificado numa profissão envelhecida e face ao mal-estar sentido na classe. Há ainda uma falta de capacitação dos professores no quadro da LMI. Há falta de formação de base — maioritariamente focada na tecnologia e não tanto numa perspetiva crítica —, mas há igualmente falta e desconhecimento sobre a oferta de formação contínua. Adicionalmente, não podemos ainda ignorar que esta formação contínua em torno da LMI é pouco atraente para efeitos de progressão de carreira, pelo modo como estas formações são contabilizadas. No que respeita à ação governativa, não é ignorada a reorientação e reconfiguração da ação educativa, associada à publicação do Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória e da Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. Ainda assim, e sobretudo de acordo com os dados das entrevistas, a LMI continua sem ser vista, de forma generalizada, como uma prioridade das entidades governamentais. Há inquiridos a sublinhar a importância atribuída aos programas curriculares e à preparação para os exames, em contraponto com a formação integral, retirando espaço também à LMI. Em termos dos media, não nos podemos esquecer que tem existido uma forte aposta na modernização tecnológica, ao longo dos anos, e essa aposta nas políticas públicas espelha-se, de certo modo, nas políticas e práticas das escolas.
Por outro lado, pensando naquilo que pode tem impulsionado as iniciativas, não podemos ignorar o Perfil dos Alunos à Saída da Escolaridade Obrigatória. Apesar de ser um documento de política educativa geral e não específico, os resultados sugerem que este documento deu um impulso às preocupações com a literacia para a informação. O maior impulso surge, ainda assim, pela ação individual dos professores. Na falta de orientações formais taxativas de nível ministerial e de políticas concretas das escolas neste domínio, o panorama das práticas de LMI assenta sobretudo no trabalho voluntário e até de uma certa militância. Agentes externos à escola também têm um papel particularmente importante. As iniciativas chegam às escolas a partir de uma multiplicidade de atores externos (entidades governamentais, academia, media e até associações), podendo as escolas aproveitar o trabalho destes agentes para facilitar as suas políticas e as práticas no domínio da LMI. O caso de Plano Nacional de Cinema evidencia bem esta situação: sem este plano, o lugar da sétima arte nas escolas seria certamente mais residual.
MILObs: Que lições podemos retirar das melhores práticas que identificou?
Marisa Mourão: A maior lição relaciona-se certamente com o papel determinante dos professores. Como referia, uma certa militância tem sido determinante para o desenvolvimento da LMI nas escolas, sobretudo no quadro de políticas públicas e de escola menos sólidas. No estudo identificam-se casos, sobretudo por via das entrevistas, em que esta militância implica inclusivamente uma mobilização de outros docentes e/ou de outros elementos da comunidade escolar. Ou seja, estes “professores/as militantes” atuam como agentes de mudança nas suas instituições. Falo, nomeadamente, de diretores, responsáveis de media escolares e de professoras bibliotecárias, que têm consciência sobre a importância deste domínio e que procuram motivar os colegas e impulsionar as práticas nas suas escolas. Esta ideia de agente de mudança atinge a sua expressão máxima num dos agrupamentos, onde a ação da professora bibliotecária resultou numa estratégia formal do agrupamento em torno da LMI, que estava, à data das entrevistas, a ser delineada e seria apresentada aos órgãos próprios. Este retrato sublinha claramente o papel determinante dos professores neste domínio, enfatizando a importância do seu envolvimento em qualquer política pública e de escola que possa ser desenvolvida. Por outro lado, a importância da biblioteca escolar e das parcerias com agentes externos à escola também parecem ser uma “lição” a não perder de vista, sobretudo por parte das escolas.
MILObs: A sua tese traz dados empíricos para a discussão da presença dos media nas escolas. Que caminhos lhe parecem mais prementes iniciar ou continuar a investigar neste domínio?
Marisa Mourão: O contínuo mapeamento da situação da promoção da LMI nas escolas é determinante para apoiar as políticas e as práticas. Em termos de questões particulares, seria certamente valioso um aprofundamento da situação do domínio dos media na disciplina Cidadania e Desenvolvimento, considerando as temáticas abordadas neste espaço disciplinar. Adicionalmente, seria importante considerar outros espaços e territórios que não têm sido objeto de atenção no estudo da LMI: o ensino privado e as regiões autónomas.
O estudo a que nos referimos, nesta entrevista, contempla os anos 2021/2022 e 2022/2023 e o cenário tem vindo a sofrer alterações desde aí. Neste momento, não podemos ignorar o já muito aguardado Plano Nacional de Literacia Mediática, cuja consulta pública decorreu entre 3 e 22 fevereiro de 2025. Não podemos ignorar as restrições previstas quanto ao uso dos telemóveis nas escolas e o modo como se coloca (ou não), neste caso, uma educação para os media. Não podemos, ainda, ignorar que está, agora, em vigor, uma nova Estratégia Nacional de Educação para a Cidadania. Todas estas alterações precisam de ser analisadas e estudas, procurando perceber os efeitos das políticas públicas, também como forma de as apoiar.