Ouvir os jovens para reinventar a literacia mediática: o que revela a experiência do Conselho Consultivo Jovem do PÚBLICO na Escola
August 7, 2026Durante décadas, grande parte das iniciativas de educação para os media foi construída a partir de uma lógica relativamente simples: especialistas, jornalistas e professores concebiam projetos destinados aos jovens, procurando desenvolver competências de análise crítica, consumo responsável de informação e participação cívica. Os jovens eram os destinatários das ações, mas raramente participavam na definição dos seus objetivos, metodologias ou conteúdos.
Nos últimos anos, porém, esta perspetiva começou a mudar. A investigação internacional em literacia mediática, participação juvenil e educação tem vindo a defender que as novas gerações não devem ser vistas apenas como público-alvo das políticas educativas, mas como parceiras na sua conceção. Em vez de desenvolver programas “para os jovens”, cresce a ideia de criar projetos “com os jovens”, envolvendo-os na identificação de problemas, na construção de soluções e na avaliação dos resultados.
É precisamente neste contexto que ganha particular relevância a experiência do Conselho Consultivo Jovem do PÚBLICO na Escola, cujo primeiro ano de atividade foi recentemente apresentado pelo jornal. Mais do que uma iniciativa interna de um projeto de educação para os media, o conselho representa um exemplo português de uma tendência internacional que procura aproximar a literacia mediática dos princípios da participação democrática e da co-criação.
Da educação para os media à participação ativa
A educação para os media conheceu uma profunda evolução nas últimas décadas. Se inicialmente esteve centrada na leitura crítica da televisão, da publicidade ou da imprensa, o desenvolvimento da internet, das redes sociais e das plataformas digitais obrigou a ampliar significativamente o conceito de literacia mediática.
Hoje, compreender o funcionamento dos algoritmos, identificar processos de desinformação, avaliar a credibilidade das fontes, reconhecer conteúdos produzidos por inteligência artificial ou participar de forma ética nos ambientes digitais são competências consideradas essenciais para a cidadania contemporânea.
Organizações como a UNESCO, o Conselho da Europa e a Comissão Europeia têm vindo a defender que estas competências não podem ser desenvolvidas através de modelos exclusivamente expositivos. Pelo contrário, exigem metodologias participativas, colaborativas e centradas nas experiências reais dos cidadãos, particularmente dos mais jovens.
A própria UNESCO, através do seu quadro de Media and Information Literacy (MIL), tem insistido que a literacia mediática não consiste apenas em ensinar as pessoas a analisar criticamente os media, mas também em capacitá-las para produzir conteúdos, participar nos processos comunicacionais e compreender o seu papel na construção do espaço público.
Os jovens já não são apenas consumidores de informação
Esta mudança resulta igualmente da transformação do próprio ecossistema mediático.
Ao contrário das gerações anteriores, os jovens de hoje não ocupam apenas o papel de consumidores de notícias. Produzem vídeos, criam conteúdos para redes sociais, participam em comunidades digitais, comentam acontecimentos em tempo real e influenciam a circulação da informação entre os seus pares.
Como tem defendido Henry Jenkins através do conceito de cultura participativa, as fronteiras entre produtores e consumidores tornaram-se progressivamente mais difusas. Os cidadãos, sobretudo os mais jovens, passaram a desempenhar simultaneamente funções de audiência, criadores e distribuidores de conteúdos.
Esta realidade altera profundamente a forma como a literacia mediática deve ser pensada. Se os jovens participam ativamente na circulação da informação, faz cada vez menos sentido desenvolver estratégias educativas sem conhecer as suas práticas, expectativas e dificuldades.
Também Sonia Livingstone tem sublinhado que os direitos das crianças e dos jovens no ambiente digital não se esgotam na proteção contra riscos. Incluem igualmente o direito à participação, à expressão e ao envolvimento nas decisões que afetam a sua experiência mediática.
Da consulta à co-criação
É neste contexto que ganha força o conceito de co-criação.
Amplamente utilizado em áreas como a inovação pública, o design de serviços ou a investigação participativa, este conceito procura envolver os utilizadores finais na construção das soluções que lhes dizem respeito.
Na educação para os media, a co-criação significa deixar de considerar os jovens apenas como beneficiários das iniciativas e reconhecê-los como parceiros capazes de contribuir para a definição de prioridades, formatos pedagógicos e estratégias de comunicação.
Investigadores como Nico Carpentier defendem que a participação não deve ser entendida apenas como presença simbólica ou consulta ocasional. Participar implica influenciar efetivamente as decisões, partilhar responsabilidades e contribuir para a construção coletiva dos projetos.
Esta perspetiva aproxima-se igualmente da Convenção das Nações Unidas sobre os Direitos da Criança, que reconhece o direito dos jovens a expressarem livremente as suas opiniões e a serem ouvidos em todas as matérias que lhes dizem respeito.
O caso do Conselho Consultivo Jovem do PÚBLICO na Escola
Foi precisamente esta lógica que orientou a criação do primeiro Conselho Consultivo Jovem do PÚBLICO na Escola.
Ao longo do ano letivo, catorze jovens, com idades entre os 13 e os 18 anos e provenientes de diferentes regiões do país, participaram regularmente em reuniões com a equipa do projeto. O grupo integrou estudantes com interesses diversos, desde o jornalismo à ciência, da política às associações de estudantes, da escrita à participação cívica.
Durante estes encontros foram debatidos temas como os hábitos de consumo de notícias, a utilização das redes sociais, a inteligência artificial, os assuntos que despertam maior interesse entre os jovens, a participação nas escolas ou as críticas dirigidas aos media.
Mais importante do que recolher opiniões, o objetivo passou por incorporar estas perspetivas na definição das atividades futuras do projeto.
Na prática, o Conselho Consultivo Jovem funciona como um espaço permanente de diálogo entre quem produz iniciativas de literacia mediática e quem delas participa.
Porque é importante ouvir os jovens?
A investigação mostra que existe frequentemente uma distância significativa entre a forma como os adultos imaginam os hábitos mediáticos dos jovens e aquilo que efetivamente acontece.
Muitas estratégias educativas continuam a partir de pressupostos que nem sempre correspondem às experiências reais das novas gerações.
Ao envolver diretamente os jovens, torna-se possível compreender melhor como utilizam plataformas digitais, de que forma verificam informação, quais os criadores de conteúdos que acompanham, como encaram a inteligência artificial ou que obstáculos encontram quando procuram informação credível.
Estas informações permitem desenvolver atividades mais relevantes, mais próximas dos seus interesses e mais eficazes na promoção da literacia mediática.
Ao mesmo tempo, este tipo de participação reforça competências como o pensamento crítico, a argumentação, a colaboração e a cidadania democrática.
Um desafio para o jornalismo
A experiência do PÚBLICO na Escola levanta igualmente questões importantes para o próprio jornalismo.
Num contexto marcado pelo envelhecimento das audiências, pela crescente utilização das redes sociais como fonte de informação e pela concorrência exercida pelas plataformas digitais, compreender os públicos mais jovens tornou-se uma prioridade estratégica para muitos órgãos de comunicação social.
Mas compreender não significa apenas medir audiências ou analisar métricas de utilização.
Significa também criar espaços de diálogo permanente onde os jovens possam explicar como se informam, o que esperam dos media e que tipo de jornalismo consideram relevante.
Neste sentido, iniciativas como o Conselho Consultivo Jovem aproximam o jornalismo de práticas de inovação aberta, onde a construção de soluções passa pelo envolvimento dos próprios utilizadores.
Um caminho que poderá ganhar importância
A experiência agora apresentada pelo PÚBLICO na Escola acompanha uma tendência que começa a ser visível em diferentes países, onde escolas, universidades, organizações da sociedade civil e meios de comunicação procuram integrar jovens na conceção de projetos de educação para os media.
Num ecossistema informativo marcado pela inteligência artificial, pela desinformação, pela personalização algorítmica e pela crescente fragmentação das audiências, desenvolver competências de literacia mediática continuará a ser essencial. Mas essas competências dificilmente poderão ser promovidas através de modelos exclusivamente desenhados por adultos.
Ouvir os jovens, reconhecer as suas experiências e integrá-los na construção das respostas educativas representa uma mudança de paradigma que ultrapassa a simples participação simbólica. Significa reconhecer que os destinatários das políticas de literacia mediática podem, eles próprios, contribuir para as transformar.
O Conselho Consultivo Jovem do PÚBLICO na Escola mostra precisamente essa evolução. Mais do que um espaço de consulta, constitui um exemplo de como a participação juvenil pode tornar-se um elemento estruturante das iniciativas de educação para os media, aproximando-as das realidades, das práticas e das expectativas das novas gerações.