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Diretor Editorial de Engenharia? Editor de IA? As novas profissões que mostram como o jornalismo está a mudar

June 11, 2026

Há poucos anos, seria difícil imaginar uma redação à procura de um Diretor Editorial de Engenharia, de um Editor de Inovação em Inteligência Artificial ou de um Gestor de Produto para IA. Hoje, estas funções estão a ser criadas por algumas das mais influentes organizações jornalísticas do mundo.

Uma análise publicada pelo Nieman Lab, a partir do relatório Future Newsrooms Study da FT Strategies e da WAN-IFRA, identificou 16 novas funções emergentes em redações como as do The New York Times, CNN, Politico, Bloomberg, The Economist, Washington Post ou BBC. Mais do que vagas de emprego, estas posições ajudam a compreender para onde caminha o jornalismo numa época marcada pela Inteligência Artificial, pela transformação das audiências e pela crescente dependência das plataformas digitais.

A redação já não é apenas uma redação

Durante grande parte do século XX, as redações eram compostas por jornalistas, editores, fotógrafos e designers. A missão era relativamente clara: produzir informação, editá-la e distribuí-la.

Hoje, esse modelo está a ser profundamente reconfigurado.

As redações transformam-se progressivamente em ambientes híbridos onde convivem profissionais de jornalismo, engenharia informática, ciência de dados, design de produto, inteligência artificial, análise de audiências e desenvolvimento tecnológico.

O próprio conceito de redação está a expandir-se.

Quando a Politico procura um Editorial Director of Newsroom Engineering, não está apenas a contratar um gestor técnico. Está a reconhecer que a inovação tecnológica passou a fazer parte da própria estratégia editorial. O objetivo da função é liderar equipas capazes de desenvolver ferramentas de IA, automatizar processos, criar modelos proprietários e aproximar jornalistas e programadores num mesmo espaço de trabalho.

Há poucos anos, esta posição simplesmente não existia.

A Inteligência Artificial deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma área editorial

Talvez o sinal mais evidente desta transformação seja o surgimento de funções diretamente relacionadas com Inteligência Artificial.

A CNN procura um Senior Editor, AI Innovation, responsável por identificar necessidades dos jornalistas e desenvolver soluções baseadas em IA para investigação, pesquisa documental, edição e produção de conteúdos.

Já a revista The Economist criou um laboratório próprio de Inteligência Artificial e procura engenheiros especializados em modelos de linguagem, geração multimodal e personalização editorial.

O interessante é que estas funções não pertencem apenas ao universo tecnológico. Exigem simultaneamente compreensão editorial, pensamento crítico e conhecimento dos processos jornalísticos.

Estamos perante uma nova figura profissional: alguém que compreende tanto o funcionamento de uma redação como o funcionamento de sistemas de IA.

O crescimento dos jornalistas-produto

Outra tendência particularmente relevante é a aproximação entre jornalismo e desenvolvimento de produto.

O New York Times procura um Product Director para experiências multimodais, enquanto o Washington Post investe em cargos de liderança para repensar o design das suas experiências informativas.

Esta transformação resulta de uma constatação simples: atualmente, o jornalismo não compete apenas com outros meios de comunicação. Compete com TikTok, YouTube, Netflix, Spotify, ChatGPT e inúmeras outras formas de consumo digital.

A experiência de utilização passou a ser tão importante quanto o próprio conteúdo.

Por isso, as redações procuram profissionais capazes de pensar o jornalismo como produto, desenhando novas formas de leitura, escuta, visualização e interação.

O algoritmo tornou-se um editor invisível

Uma das áreas que mais cresce é a das audiências.

Funções como Audience Editor ou Audience Deputy revelam uma preocupação crescente com a forma como as pessoas encontram notícias. Se durante décadas o acesso à informação dependia da capa de um jornal ou da programação de uma estação televisiva, hoje depende frequentemente dos algoritmos de pesquisa, das redes sociais e dos sistemas de recomendação.

Compreender estas dinâmicas tornou-se uma competência estratégica.

Não se trata apenas de aumentar tráfego ou visualizações. Trata-se de garantir que o jornalismo continua a chegar aos cidadãos num ambiente em que as plataformas desempenham um papel cada vez mais determinante na circulação da informação.

As novas profissões dos media

Entre as funções identificadas pelo estudo encontram-se ainda:

* Editor de Desenvolvimento e Suporte de Redação (The New York Times);
* Diretor Editorial de Engenharia (Politico);
* Editor de Inovação em IA (CNN);
* Engenheiro Sénior de IA (The Economist);
* Gestor de Produto para IA (USA Today);
* Diretor de Produto Multimodal (The New York Times);
* Responsável de Design de Produto (Washington Post);
* Editor de Audiências (CNN);
* Gestor de Canal YouTube (BBC);
* Editor de Vídeo Social para Podcasts (Vox Media);
* Gestores de plataformas de conteúdos para IA (Bloomberg);
* Especialistas em automação editorial (South China Morning Post).

O denominador comum destas funções é evidente: todas procuram responder às mudanças tecnológicas, económicas e culturais que estão a redefinir a produção e o consumo de notícias.

Que implicações para a formação e para a literacia mediática?

O surgimento destas profissões levanta questões importantes para universidades, escolas de jornalismo e iniciativas de literacia mediática.

Como preparar futuros profissionais para trabalhar em redações onde convivem jornalistas, programadores, designers e especialistas em IA? Que competências serão essenciais nos próximos anos? Como preservar valores fundamentais como a verificação, a independência editorial e o interesse público num ambiente cada vez mais automatizado?

As vagas identificadas pelo Nieman Lab não representam apenas novas oportunidades de emprego. Funcionam como indicadores de uma transformação mais profunda: a passagem de um jornalismo centrado exclusivamente na produção de conteúdos para um jornalismo que integra tecnologia, produto, dados, distribuição e participação das audiências.

Se durante décadas a pergunta era “quem produz a notícia?”, talvez a questão que se coloca agora seja outra: quem constrói os sistemas através dos quais as notícias são produzidas, distribuídas e encontradas?

É nesse cruzamento entre jornalismo, tecnologia e cidadania que muitas das profissões do futuro já estão a nascer.

 

🔗 Artigo original do Nieman Lab:
https://www.niemanlab.org/2026/06/these-16-new-journalism-jobs-are-designed-to-help-publishers-future-proof-their-newsrooms/