Durante grande parte da sua história, a literacia mediática foi entendida sobretudo como um conjunto de competências destinadas a ajudar os cidadãos a interpretar criticamente os media. Aprender a distinguir factos de opiniões, identificar desinformação, compreender a influência dos algoritmos ou reconhecer estratégias de manipulação tornou-se um dos principais objetivos de escolas, universidades e organizações internacionais.
Nos últimos anos, porém, este paradigma começou a mudar. A investigação internacional tem vindo a defender que compreender os media continua a ser fundamental, mas já não é suficiente. Produzir conteúdos, contar histórias, criar narrativas digitais ou desenvolver projetos colaborativos são hoje entendidos como dimensões igualmente importantes da literacia mediática, capazes de promover participação cívica, inclusão social e, em alguns contextos, contribuir para processos de reconstrução individual e coletiva após situações de conflito.
Esta mudança encontra expressão na mais recente edição da Youth Media Reporter, dedicada ao tema da construção da paz (Peacebuilding). A publicação parte da experiência da organização humanitária INARA junto de jovens refugiados palestinianos para mostrar como a criação artística e mediática pode funcionar como mecanismo de recuperação emocional e reconstrução das relações sociais. Mais do que relatar uma experiência de voluntariado, o texto acompanha uma tendência que tem vindo a ganhar força na investigação internacional: a produção mediática está a deixar de ser apenas uma competência técnica para assumir um papel relevante na promoção do bem-estar, da cidadania e da paz.
Uma nova geração de estudos sobre literacia mediática
Durante muitos anos, a investigação em literacia mediática privilegiou competências relacionadas com o acesso, análise, avaliação e utilização crítica da informação. Este modelo continua presente em documentos de referência da UNESCO e em grande parte das políticas públicas desenvolvidas em diferentes países.
Contudo, autores como Renee Hobbs, Divina Frau-Meigs e José Manuel Pérez Tornero têm vindo a defender uma visão mais abrangente da literacia mediática. Nesta perspetiva, os cidadãos não são apenas consumidores de informação: são também produtores de conteúdos, participantes em comunidades digitais e agentes ativos na construção do espaço público.
Esta evolução tornou-se ainda mais evidente com a expansão das redes sociais e das plataformas digitais. A capacidade de produzir fotografias, vídeos, podcasts, reportagens ou narrativas multimédia passou a fazer parte das competências consideradas essenciais para participar na sociedade contemporânea.
Também o recente Position Statement on Media Education, publicado pelo National Council of Teachers of English (NCTE), reforça esta mudança ao colocar a produção multimodal de conteúdos, a criatividade e a comunicação ética entre os pilares centrais da educação para os media.
Produzir media também pode significar reconstruir vidas
É precisamente neste contexto que surge o conceito desenvolvido pela edição da Youth Media Reporter dedicada ao peacebuilding.
O artigo, assinado por Anja Damon, parte da experiência da autora como voluntária da INARA (International Network for Aid, Relief and Assistance), organização que presta apoio médico e psicológico a crianças e jovens afetados pela guerra em Gaza. Nos centros instalados em Ancara, na Turquia, e posteriormente no Cairo, no Egito, Damon observou como atividades aparentemente simples desenho, pintura, construção de murais coletivos ou outras formas de criação artística, assumiam um papel importante nos processos de recuperação emocional.
As crianças encontravam nesses espaços oportunidades para brincar, imaginar, criar e expressar experiências frequentemente marcadas pelo trauma da guerra, da deslocação forçada e da perda familiar. Em muitos casos, a produção criativa transformava-se numa linguagem alternativa para comunicar emoções difíceis de verbalizar.
Embora o testemunho tenha um carácter pessoal, ele acompanha resultados de investigação desenvolvidos nas áreas da comunicação participativa, da psicologia e dos estudos sobre construção da paz.
Da comunicação participativa ao peacebuilding
Há várias décadas que investigadores defendem que os media não desempenham apenas funções informativas.
Clemencia Rodríguez demonstrou, através do conceito de citizens’ media, que a produção mediática pode fortalecer identidades, reforçar laços comunitários e criar espaços de participação para grupos frequentemente excluídos dos meios de comunicação tradicionais.
Também Nico Carpentier tem insistido que a participação nos media não se resume ao acesso à informação. Produzir conteúdos, decidir o que comunicar e participar nos processos de criação constitui uma forma de exercício da cidadania democrática.
Na área da comunicação para o desenvolvimento, Alfonso Gumucio Dagron e Jo Tacchi chegaram a conclusões semelhantes. Diversos projetos desenvolvidos em comunidades afetadas por pobreza, desigualdades ou conflitos mostram que oficinas de rádio comunitária, fotografia, vídeo participativo ou storytelling digital contribuem para aumentar a autoestima, fortalecer redes sociais e criar novas oportunidades de participação coletiva.
Neste contexto, os media deixam de ser apenas canais de transmissão de informação para se tornarem instrumentos de reconstrução social.
Narrativas também constroem paz
Esta perspetiva aproxima-se igualmente da literatura sobre peacebuilding.
Desde os trabalhos de Johan Galtung sobre jornalismo para a paz e, posteriormente, das propostas de John Paul Lederach sobre transformação de conflitos, tornou-se evidente que os processos de construção da paz não dependem apenas de negociações políticas ou acordos institucionais.
As sociedades também se reconstruem através das narrativas que produzem sobre si próprias.
Quem pode contar a sua história? Quem permanece invisível? Que experiências encontram espaço na esfera pública?
Neste sentido, criar conteúdos deixa de ser apenas um exercício de criatividade. Passa a constituir uma forma de recuperar voz, identidade e capacidade de participação.
É precisamente esta dimensão que atravessa a experiência descrita pela INARA. As atividades criativas observadas nos centros de apoio não tinham apenas objetivos recreativos; permitiam que crianças e jovens recuperassem gradualmente a possibilidade de representar as suas experiências e imaginar futuros possíveis para além da guerra.
Um conceito de literacia mediática em transformação
Esta evolução ajuda igualmente a compreender porque a própria definição de literacia mediática continua a expandir-se.
Se durante muitos anos o foco incidiu sobretudo na análise crítica da informação, hoje ganha força uma abordagem que integra criação, participação, colaboração, cidadania digital e expressão criativa como componentes centrais das competências mediáticas.
Esta mudança acompanha igualmente outros debates contemporâneos sobre inteligência artificial, plataformas digitais e participação juvenil. Quanto mais automatizada se torna a produção de conteúdos através de sistemas de IA generativa, maior parece ser a importância atribuída às formas genuinamente humanas de criação, expressão e comunicação.
Para além da leitura crítica
O testemunho publicado pela Youth Media Reporter ilustra, assim, uma transformação mais ampla na investigação sobre literacia mediática. A produção de conteúdos deixa progressivamente de ser vista apenas como um resultado da aprendizagem para passar a constituir ela própria um processo educativo, terapêutico e social.
Num contexto internacional marcado por conflitos armados, deslocações forçadas, polarização e crescente desinformação, esta perspetiva convida a repensar o próprio significado da educação para os media. Preparar cidadãos para interpretar criticamente a informação continua a ser indispensável, mas talvez já não seja suficiente. Criar espaços onde crianças e jovens possam produzir as suas próprias narrativas, partilhar experiências e reconstruir relações através da comunicação poderá representar uma das dimensões mais promissoras da literacia mediática contemporânea.
Mais do que ensinar a ler os media, a investigação internacional começa agora a mostrar que produzir media também pode ajudar a reconstruir pessoas, comunidades e, em determinadas circunstâncias, contribuir para a própria construção da paz.