Voltar para as notícias

Das estantes aos algoritmos: como as bibliotecas estão a redefinir a literacia na era da inteligência artificial

Julho 30, 2026

Oficinas promovidas por bibliotecas nos Estados Unidos mostram que estas instituições estão a assumir um novo papel na mediação entre cidadãos e tecnologias de IA.
Durante décadas, as bibliotecas públicas foram um dos principais espaços de promoção da literacia informacional e digital. Ensinar a pesquisar informação, avaliar a credibilidade das fontes, utilizar serviços digitais ou desenvolver competências tecnológicas passou a fazer parte da missão destas instituições, acompanhando a crescente digitalização da sociedade. Hoje, porém, o avanço da inteligência artificial (IA) está a colocar novos desafios, levando algumas bibliotecas a alargar novamente o âmbito da sua intervenção.
Nos Estados Unidos, várias bibliotecas públicas começaram a organizar oficinas dedicadas a explicar aos cidadãos como desativar funcionalidades de IA integradas em dispositivos e plataformas digitais. As sessões, designadas Avoiding AI, ensinam os participantes a identificar e desligar ferramentas como o Apple Intelligence ou o Gemini, ao mesmo tempo que explicam de forma acessível como estes sistemas funcionam, quais os seus potenciais benefícios e limitações e em que contextos podem ser utilizados. A iniciativa surgiu a partir de dúvidas frequentes colocadas por utilizadores e rapidamente despertou um interesse muito superior ao habitual, levando algumas bibliotecas a abrir listas de espera e novas edições das oficinas.
À primeira vista, trata-se apenas de uma resposta prática a uma preocupação crescente dos utilizadores. No entanto, este fenómeno revela uma transformação mais profunda. As bibliotecas deixam de ser apenas espaços de acesso ao conhecimento para assumirem um papel de mediação crítica perante tecnologias que se tornam cada vez mais presentes e menos visíveis, no quotidiano digital.

Quando a literacia deixa de significar apenas aprender a utilizar tecnologia

A promoção da literacia digital esteve tradicionalmente associada ao desenvolvimento de competências técnicas. Durante muitos anos, o principal desafio consistiu em reduzir desigualdades no acesso às tecnologias e capacitar cidadãos para utilizar computadores, navegar na Internet ou aceder a serviços digitais.
A inteligência artificial generativa altera este paradigma. Hoje, a questão já não é apenas saber utilizar uma nova ferramenta. É compreender quando ela está presente, como influencia decisões, que dados utiliza e quais as implicações da sua utilização.
Esta mudança tem sido reconhecida por várias organizações internacionais. A UNESCO, nas orientações sobre inteligência artificial generativa na educação publicadas em 2023, defende que a literacia em IA deve integrar dimensões técnicas, críticas e éticas, permitindo aos cidadãos compreender os impactos destas tecnologias na privacidade, nos direitos fundamentais e na participação democrática. De forma semelhante, a OCDE tem vindo a defender que a preparação para uma sociedade cada vez mais automatizada exige competências que vão muito além da utilização instrumental das ferramentas, incluindo a capacidade para avaliar criticamente os seus resultados e compreender os contextos em que a sua utilização é ou não apropriada.
As oficinas promovidas pelas bibliotecas norte-americanas parecem materializar precisamente esta evolução. O objetivo não é incentivar nem desencorajar a utilização da IA, mas garantir que essa utilização resulta de uma escolha consciente.

As bibliotecas como mediadoras da inovação tecnológica

O papel das bibliotecas na promoção da literacia não é novo. Desde o desenvolvimento da literacia informacional, estas instituições têm sido reconhecidas como espaços privilegiados para apoiar os cidadãos na pesquisa, avaliação e utilização crítica da informação.
Contudo, a rápida integração da inteligência artificial em motores de pesquisa, aplicações de produtividade, sistemas operativos e plataformas digitais cria um novo desafio. Em muitos casos, os utilizadores deixam de procurar ativamente estas ferramentas; passam simplesmente a encontrá-las incorporadas nas interfaces que utilizam diariamente.
É neste contexto que as bibliotecas parecem assumir uma função renovada: ajudar os cidadãos a compreender tecnologias cuja presença tende a tornar-se invisível.
Esta evolução aproxima-se da perspetiva defendida por Sonia Livingstone, segundo a qual a literacia digital não pode limitar-se ao domínio técnico das ferramentas. Num ambiente digital marcado por plataformas, algoritmos e sistemas automatizados, a literacia implica também compreender as infraestruturas que moldam o acesso à informação e desenvolver capacidade para exercer direitos e escolhas informadas.

O direito de escolher

Um dos aspetos mais interessantes destas iniciativas é que elas deslocam o foco do debate sobre inteligência artificial.
Nos últimos anos, grande parte das discussões centrou-se na necessidade de acelerar a adoção destas tecnologias por cidadãos, empresas e administrações públicas. No entanto, as dúvidas colocadas pelos utilizadores às bibliotecas mostram que começa a emergir uma preocupação diferente: a possibilidade de decidir quando utilizar IA e quando preferir processos tradicionais.
Este debate relaciona-se com o conceito de arquitetura da escolha (choice architecture), desenvolvido por Richard Thaler e Cass Sunstein, segundo o qual o desenho das opções disponíveis influencia significativamente as decisões dos utilizadores. Quando funcionalidades de IA são ativadas por defeito ou integradas de forma quase impercetível nas plataformas, a fronteira entre escolha e imposição torna-se progressivamente mais ténue.
É precisamente esta dimensão que parece mobilizar muitos dos participantes nas oficinas. Mais do que rejeitar a inteligência artificial, procuram compreender como recuperar margem de decisão sobre tecnologias que passaram a integrar automaticamente o seu quotidiano digital.

Uma nova missão para a literacia mediática

O sucesso destas oficinas sugere que a inteligência artificial está também a transformar o próprio conceito de literacia mediática.
Se, durante muitos anos, a prioridade consistiu em ensinar os cidadãos a utilizar tecnologias digitais, o desafio atual parece ser diferente. Num ambiente em que a IA se integra silenciosamente em motores de pesquisa, aplicações de escrita ou sistemas operativos, torna-se igualmente necessário ensinar a reconhecê-la, compreender o seu funcionamento e decidir conscientemente quando recorrer às suas funcionalidades.
Neste sentido, as oficinas promovidas pelas bibliotecas norte-americanas representam mais do que uma curiosidade associada ao entusiasmo ou à fadiga em torno da inteligência artificial. Revelam a capacidade destas instituições para responder a novas necessidades sociais e mostram que a literacia mediática continua a evoluir em função das transformações do ecossistema digital.
Talvez seja precisamente esse o principal ensinamento deste fenómeno: numa sociedade cada vez mais mediada por sistemas inteligentes, formar cidadãos digitalmente competentes já não significa apenas ensinar a utilizar tecnologia. Significa também garantir que continuam a compreender as tecnologias que utilizam, as escolhas que lhes são apresentadas e os direitos que mantêm perante elas. Essa poderá ser uma das funções mais relevantes das bibliotecas na era da inteligência artificial.

Avoiding AI